Estamos em pleno mês de junho, esse mês tão especial para todos nós, por ser o mês dos santos populares. Junho, como toda a gente sabe, vem de uma homenagem à deusa romana Juno que, para além de ser a protetora das mulheres, também sempre foi uma grande apreciadora de cerveja morta e sardinhas na brasa. Como deverão saber, o grande incêndio de Roma aconteceu porque alguém deixou o grelhador a arder e nunca mais se lembrou de o ir ver.

É esta a altura do ano em que o país se torna numa grande festa de quintal: há coisas a grelhar, a maioria começa a beber às quatro da tarde e é uma questão de tempo até os vizinhos pedirem para baixar a música. Eventualmente acaba em pancada por motivos como "estava a fazer o comboio e tu entornaste-me cerveja para cima" ou ainda o gravíssimo "Dá cá isso, tu não percebes nada de grelha".

Mas as ruas estão cheias, os grelhadores não param de trabalhar, as aparelhagens estão ligadas e as cabeças começam a estar enfeitadas com merchandising de marcas. Estes são os primeiros arraiais populares sem restrições e as festas já estão com tanto gás que se abríssemos um gasoduto em Alfama conseguíamos fornecer a Europa inteira. Nos bairros, é costume gritar-se coisas como "A Bica é linda! Alfama é lindaaaa!" e, para mim, são todas lindas, desde que as ruas não sejam como os números da covid depois das festas: muito a subir. Este ano, como moradora de um bairro lisboeta e pessoa que não põe roupa a estender em junho, vou substituir esses gritos típicos por: "A Graça é lindaaa mas é cada vez mais cara devido ao aumento do preço do metro quadrado seja para arrendar ou para comprar, o que faz com que seja difícil para as pessoas manterem-se nos bairros por causa do fenómeno da gentrificaçãaaaaaao!" Gostam? Vou tentar que pegue.

É fácil dizer que são os Santos mas, por causa dos preços, é cada vez mais difícil justificar o Popular. Porque se há razão para a tradição ser com pão e sardinhas é porque era o que o povo conseguia servir e é por isso que suspeito que se a tradição começasse hoje, era salsichas em lata de marca branca e meia fatia de pão de forma que se servia nas barraquinhas. O cheiro daquele molho de lata pelas ruas e desenhos de pão de forma pendurados em todo o lado. Mas se há coisa que reparei é que os turistas adoram as festas. Se é uma sardinha, se é uma palmilha que têm no pão, não sabem bem, mas gostam e metem no Instagram e isso é que importa.

Das marchas aos casamentos, eu adoro os Santos Populares porque têm tudo aquilo que eu mais aprecio na vida. Coisas grelhadas no pão, música popular e fazer xixi entre dois carros com uma amiga a tapar. No fundo, sou como o Malhão que é só comer, beber e passear na rua, muitas vezes aos encontrões tal é a maré de gente em Lisboa. A música popular é um tema sensível para mim. É que eu não sou daquelas pessoas falsas que só ouvem Ágata ou José Malhoa nesta altura. É que, para a maioria das pessoas, só é cool trautear grandes sucessos de música popular nos arraiais. E isso irrita-me. É que eu também fico burra a olhar para o cartaz do Nos Primavera Sound mas assumo que não sei quem são e nem sequer gosto. E está tudo bem. É como diz aquele ditado, se todos gostássemos do amarelo, o que seria dos Nemanus? Ficam a saber que na playlist do meu carro, faço questão de ter temas do álbum de "Calças rasgadas" de 1993 da Ana Malhoa e ainda mal o Jorge Guerreiro tinha entrado na casa do Big Brother já eu estava aos gritos porque finalmente entrava uma celebridade a sério. São estas surpresas que ainda vos consigo dar. Tudo bem, o Saúl Ricardo não é um Mozart, mas o Mozart aos sete anos também não sabia fazer uma imitação perfeita do Quim Barreiros e até consta que era péssimo em trocadilhos marotos. Essa é que é essa.

Humorista

QOSHE - Podem fazer festas - Cátia Domingues
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Podem fazer festas

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12.06.2022

Estamos em pleno mês de junho, esse mês tão especial para todos nós, por ser o mês dos santos populares. Junho, como toda a gente sabe, vem de uma homenagem à deusa romana Juno que, para além de ser a protetora das mulheres, também sempre foi uma grande apreciadora de cerveja morta e sardinhas na brasa. Como deverão saber, o grande incêndio de Roma aconteceu porque alguém deixou o grelhador a arder e nunca mais se lembrou de o ir ver.

É esta a altura do ano em que o país se torna numa grande festa de quintal: há coisas a grelhar, a maioria começa a beber às quatro da tarde e é uma questão de tempo até os vizinhos pedirem para baixar a música. Eventualmente acaba em pancada por motivos como "estava a fazer o comboio e tu entornaste-me cerveja para cima" ou ainda o gravíssimo "Dá cá isso, tu não percebes nada de grelha".

Mas as ruas estão cheias, os grelhadores não param de trabalhar, as aparelhagens estão ligadas e as........

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