Crônica do vírus requentado
Há um bem-te-vi que canta toda manhã na minha janela, aqui em Belo Horizonte, e confesso que o invejo: ele não tem whatsapp nem outras redes sociais. Canta a mesma verdade de sempre — bem-te-vi, bem-te-vi — e ninguém o desmente, ninguém lhe manda vídeo de dois minutos gravado dentro de um carro por um sujeito que descobriu ornitologia semana passada. O passarinho tem esse luxo. Eu não tenho.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Nas últimas semanas, voltaram a chegar até mim, requentadas no micro-ondas da má-fé, as velhas mentiras de 2020: que o vírus da China era gripezinha, que a vacina trazia um chip 5G, que o distanciamento era plano comunista para falir a churrascaria e promover o restaurante chinês. Fico pensando nesse chip — tão poderoso que nos controlaria a todos, tão discreto que nenhum microscópio do mundo jamais o encontrou.
Em Ibiá, no Triângulo, a gente perguntaria baixinho: “Tem base?”. Não tem base nenhuma, uai. Mas o negacionista é uma criatura de fé robusta; acredita mais no áudio do cunhado que em todos os prêmios Nobel da medicina. E nisso há quase uma inocência, se a inocência não tivesse custado tantos atestados de óbito que tivemos que preencher e registrar em cartórios, antes de sepultar milhares de defuntos em vala comum, sem velórios e flores.
Meu amigo Afonso me disse, em conversa de boteco, que eu não deveria me ocupar dessas sandices; que o cronista deve falar da tarde, do vento e de uma mulher que passa, deixando perfume no ar. Ele tem razão, e eu queria concordar. Concordo e desobedeço. Acontece que sou infectologista e a minha tarde, o meu vento, as mulheres e........
