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Retrato falado na manhã de domingo: uma conversa contra a crueza do mundo

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15.08.2026

Retrato falado na manhã de domingo: uma conversa contra a crueza do mundo

Porque os tempos não são simples, e porque cabe atravessá-los com cautela, e porque há sempre alguma urgência em preparar as crianças para a crueza do mundo, por tudo isso é que a conversa teve início. A princípio um questionário objetivo, burocrático, fazendo da mesa do café o guichê de uma repartição pública. Fernanda era a funcionária que interrogava, Tulipa e Penélope as cidadãs seríssimas que respondiam. Nome, data de nascimento, bairro em que vivem, nome da rua, número do prédio e do apartamento, nome completo dos pais, telefones respectivos. Tudo elas respondiam com esforço, o cenho franzido, aceitando a gravidade do exercício.

Foi no desafio seguinte que a coisa se fez insólita, abrindo caminho ao casual surrealismo infantil. Se por acaso se perdessem do pai num mercado, numa praça, numa praia, como o descreveriam ao policial que parasse para ajudá-las? Aqui elas se puseram pensativas, me examinaram com cuidado, me rodearam para uma observação por todos os ângulos possíveis. Enquanto elas refletiam, eu já concebia o meu autorretrato falado, fundado em critérios convencionais, aqueles que faziam de mim um homem alto, de barba escura, olhos castanhos, óculos de moldura azul, nariz adunco, um homem já um pouco assombrado pela........

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