Tudo o que é sólido desmancha no ar
Eu posso dizer que pertenço a uma geração privilegiada. Não por ter vivido só de felicidades e de vitórias, mas, ao contrário, por ter sido contemporâneo de grandes acontecimentos históricos e culturais e vivido tudo isso com uma geração de grandes nomes, os melhores que pude conhecer.
Gerações anteriores tiveram que conviver com um longo refluxo de revoluções e com todas as consequências que aqueles períodos produziam. Velhos dirigentes trotskistas contam que era desesperador falar do cruzamento do deserto representado pela vitória do fascismo na Europa, do stalinismo na União Soviética e nos partidos comunistas. Diante desses períodos, quando se chegou à década de 1960, parecia que o pior tinha ficado definitivamente para trás.
Para quem vivia deste lado do Atlântico, até a revolução parecia algo distante, como um fenômeno asiático, protagonizado por Lenin e por Mao, e ideologicamente europeu, pois era de lá que nos chegavam as leituras e as interpretações.
Contávamos com a Revolução Mexicana, distante no tempo e da qual haviam ficado quase apenas versões cinematográficas e musicais — em que Pancho Villa e Zapata eram os principais personagens —, sem a verdadeira dimensão política do fenômeno que ambos........
