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O povo ainda cabe na Democracia? Crónica de Margarida Davim

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03.07.2026

O sol derrete-se no mar. Viramos a custo as costas às manchas laranja e rosa com que se despede. Atravessamos a marginal e entramos no Centro Cultural da Nazaré. O ar está abafado. Sentimos o calor enquanto olhamos para as cadeiras vazias. Lá fora, as pessoas espalham-se por esplanadas, conversam em grupos nos passeios, sacodem a areia dos pés enquanto saem da praia. Quem virá sentar-se ali para responder à pergunta que o cartaz anuncia? “O povo ainda cabe na democracia?”, escreveram a vermelho sobre um fundo amarelo garrido, com um ponto de interrogação que se agiganta. E eu interrogo-me sobre quem virá, enquanto passo os olhos pelas fotografias e pelos cartazes do Estado Novo e da Revolução que ali estão expostos.

Em pouco tempo, começam a encher-se as cadeiras e depois as bancadas, ao fundo da sala, onde alguém se senta com um cravo gigante, apoiando-se nele como num cajado. Na primeira fila está um vidreiro que conheci numa manifestação da CGTP. Tem de entrar no turno das 3h da manhã, na fábrica na Marinha Grande, mas veio à Nazaré para me ouvir e para falar sobre as jornadas contínuas de dois meses sem folgas para ter direito a férias, sobre a temperatura dos fornos que na semana anterior o fez trabalhar num ambiente onde 60 ºC o queimavam, como o queimam por dentro os pedaços de sílica que se alojam nos pulmões, e sobre o ruído das máquinas que equivalem a estar oito horas seguidas a ouvir o barulho do motor de um avião a descolar.

Na outra ponta da sala, sentaram-se dois antifascistas presos pelo Estado Novo, que me falaram da felicidade do dia em que saíram de Caxias, tão bêbedos de liberdade que passaram horas a caminhar lado a lado, soltando vivas à Revolução, antes de se reconhecerem e perceberem que estavam juntos naquele novo caminho. Os sorrisos massacrados pelos anos abrem-se quando........

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