Com a ascensão da IA – a crise climática já não importa?
Em 1988, numa conferência internacional dedicada ao aquecimento global, à destruição da camada de ozono e a outras alterações da atmosfera, centenas de cientistas e responsáveis políticos advertiram que a humanidade estava a realizar uma “experiência involuntária, descontrolada e à escala planetária”, cujas consequências só poderiam ser superadas por uma guerra nuclear. Faz lembrar os avisos cada vez mais comuns sobre a Inteligência Artificial (IA), não faz?
Tinha passado apenas um ano desde a assinatura do Protocolo de Montreal, o acordo global que visa proteger a camada de ozono estratosférico através da eliminação dos químicos que a destroem. Este Protocolo foi um sucesso, e o problema do “buraco da camada de ozono” está neste momento em franca recuperação e prevê-se que as concentrações de ozono voltem aos níveis de 1980 nos anos 2040 na maior parte do mundo e em 2066 na Antártida, onde se localiza o famoso “buraco”.
Ao mesmo tempo, o aquecimento global afirmava-se como um desafio ainda maior e as atenções científicas, políticas e mediáticas viraram-se para o que então emergia como o maior problema do impacto humano no planeta Terra — que alteraria o nosso clima, e era causado pela crescente concentração de gases com efeito estufa na atmosfera por causa de, sobretudo, o consumo de combustíveis fósseis.
No mesmo ano de 1988 as Nações Unidas (ONU) criaram o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, mais conhecido pelo acrónimo IPCC, para agrupar o melhor conhecimento científico sobre o tema. A partir de 1992 com a Cimeira da Terra no Rio de Janeiro, começaram as grandes reuniões organizadas pela ONU para discutir as mudanças no clima. Nessa cimeira foi criada a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), que criou a base legal e o compromisso internacional para enfrentar o aquecimento global. Em 1995, em Berlim, começaram as COP, as conferências internacionais e praticamente anuais sobre o clima, e desde então as alterações climáticas passaram a ser vistas como o maior dos perigos dos impactos dos humanos no planeta, sem descurar outros impactos, que existiam, na altura, e ainda hoje existem, como poluição local e lixo nos oceanos.
O ativismo ambiental à volta do tema cresceu fortemente, as preocupações do público também, e apesar de muitos contratempos, a humanidade conseguiu nos anos 2010 e início dos 2020, finalmente desacelerar fortemente o crescimento das emissões de gases com efeito de estufa, tanto que agora consideram-se muito menos prováveis cenários de subidas de temperaturas acima dos 3 graus Celsius do que há 15 anos. Isto continua a ser muito mais do que os 1,5 a 2 graus totais de aumento máximo com que quase todos os países se comprometeram no Acordo de Paris em 2015, e não deixará de ter muitas consequências negativas, muitas já a acontecer, mas reduz significativamente o risco de uma catástrofe civilizacional por causa das alterações climáticas. Graças a Deus que os painéis solares são hoje a maneira mais barata de gerar eletricidade e tornam já financeiramente vantajoso ser ambientalmente sustentável. A maioria do novo crescimento da produção elétrica vem já dos painéis solares, seguidos das turbinas eólicas.
Depois de um pico em 2019 de ativismo e preocupação dos eleitorados........
