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Obituário do Brasil

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10.09.2026

Dentro de um mês, há eleições cruciais no Brasil: para Presidente, o Congresso Nacional, os Governadores e as Assembleias Legislativas. Mas talvez os eleitores nem precisem de se ralar com o bico de obra que será esquadrinhar com uma lupa um mísero candidato decente. Pois é duvidoso que o país chegue vivo às urnas. Nesta altura do campeonato, a questão é se os brasileiros são sonâmbulos de olhos vítreos ou zombies a cair de podres. Pela alarmante escassez de cérebros no mercado (o petisco predileto dos mortos-vivos), a segunda opção é muito mais provável.

O lamaçal que assola a sociedade brasileira faz a calamidade no Nepal parecer uma tempestade num copo de água. Cartas na mesa: o Brasil é tacitamente uma cleptocracia. Não o povo (que também tem muito que se lhe diga), mas o regime. Sublimamos a corrupção numa das Belas Artes, uma espécie de Capela Sistina da contravenção. Achado não é roubado – e o achado é o país todo. Claro que a população já viu esse filme de cor e salteado: o presente dos brasileiros é um déjà vu em piloto automático.

No estado mais icónico (o Rio de Janeiro), só nos últimos quatro anos seis Governadores foram presos ou afastados por trafulhices. Na Presidência da República, Fernando Collor e Dilma Roussef sofreram impeachment, e Michel Temer, Lula da Silva e Jair Bolsonaro viram o sol nascer aos quadradinhos. Este último está em prisão domiciliária, com uma crise crónica de soluços (juro!) e guarnecido com uma pulseira eletrónica (que tentou arrancar com uma solda).

Os brasileiros já gramaram com o Mensalão (a compra de apoio parlamentar no primeiro mandato de Lula da Silva, com mesadas desviadas de dinheiro público) e o Petrolão (negociatas entre empresários amigalhaços de Lula e diretores da Petrobrás por ele indicados, com contratos estatais principescos em troca de subornos).

Entrou em ação a Operação Lava-Jato, com uma mangueira que parecia capaz de apagar o incêndio da Roma por Nero com harpa e tudo: alcançou governos e autoridades em 12 países nas Américas e em África. Tais escândalos elegeram o futuro presidiário Jair Bolsonaro, que, quatro anos depois, derrotado nas eleições por um antigo presidiário, contribuiu para a avacalhação nacional ao incentivar um bisonho vandalismo em Brasília, em 8 de janeiro de 2022. O facto de que a arruaça foi protagonizada por um bando não de Maquiavéis, mas de boçais trapalhões num pastiche do já foleiro assalto ao Capitólio por totós trumpistas no dia 6 de janeiro de 222, não os inocenta lá muito.

Lula foi condenado por gamanço a 9 anos de prisão, dos quais cumpriu 580 dias. Nunca foi absolvido de coisa nenhuma: o processo acabou anulado por um arcano bizantinismo técnico. Lula saiu da cela para mais um mandato de Presidente em Brasília (o terceiro, e agora é candidato ao quarto). E pavoneou-se: “Sou a alma mais honesta do Brasil”. O pior é se ele tem toda a razão.

Na verdade, houve um  arranjinho entre quase todo o sistema político brasileiro (incluindo o Centrão, bloco suprapartidário e amorfo, insaciável na sua glutonaria por cargos e verbas), em que toda a gente tem mais calcanhares de Aquiles do que uma centopeia e mais telhados de vidro que a pirâmide do Louvre. Resultado: anulação das condenações da Lava-Jato por… bizantinismos técnicos. Mesmo daqueles réus que já tinham confessado tintim por tintim e até devolvido parte do saque.

A impunidade uniu lulistas, centrões e os Bolsonaros, que também se debatiam com suas maroscas. Como as “rachadinhas”, em que políticos embolsam parcelas dos ordenados dos seus próprios funcionários públicos dos respectivos gabinetes. Esse  processo foi anulado por… bizantinismos técnicos.

Ou Lula ou Flavio Bolsonaro (em nome do pai) será o próximo........

© Observador