Há Seguro e Há Ventura: o cansaço, a raiva e o tempo pago
Portugal chega à segunda volta das presidenciais sem entusiasmo e sem ilusões. Chega cansado. E talvez por isso esta eleição seja menos sobre escolha e mais sobre limite.
De um lado, há Seguro. Do outro, há Ventura. Entre ambos, um país dividido não apenas politicamente, mas emocionalmente. Um país suspenso entre duas pulsões contraditórias: o desejo de estabilidade e a tentação da rutura. O medo de continuar igual e o medo de mudar depressa demais.
As sondagens anteriores à primeira volta apontavam para uma vitória de António José Seguro. À partida, a lógica parece simples: Seguro poderá recolher o apoio de grande parte da esquerda e ainda de sectores do centro-direita que, sem o preferirem, o encaram como opção prudente. Ventura, pelo contrário, surge isolado no sistema político. Mas as segundas voltas raramente obedecem a lógicas simples.
Esta eleição não é um referendo sobre programas. É um teste à capacidade de mobilizar aversões.
Uma parte significativa do eleitorado olha para Seguro e vê um diplomata. Palavra medida, gesto contido, respeito pelas instituições. Um Presidente previsível, que não cria sobressaltos nem conflitos desnecessários. Num mundo instável, isto tranquiliza. Num país pequeno e periférico, isto parece sensato.
Mas a diplomacia tem um lado menos confortável. Nem todos os bloqueios se resolvem com linguagem polida. Nem todos os sistemas se reformam por consenso suave. Há estruturas que sobrevivem precisamente porque nunca são verdadeiramente confrontadas. O risco de Seguro não é o erro grave, é a omissão........
