menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A força do planeamento na resiliência

23 0
17.03.2026

Num tempo em que os fenómenos extremos se tornam cada vez mais frequentes, torna-se evidente que já não basta reconstruir cidades: é urgente planear cidades resilientes.

As tragédias recentes na zona Centro do país deixaram marcas profundas na paisagem e na memória coletiva, mas também abriram uma oportunidade rara de repensar a forma como organizamos o território e preparamos as nossas cidades para o futuro.

Como engenheira dedicada à mobilidade e ao desenho urbano, aprendi que a mobilidade nunca é apenas deslocação. Quando desenhamos ruas, praças, caminhos pedonais, ciclovias ou redes de transporte, estamos na verdade a desenhar a espinha dorsal da cidade. É essa estrutura que organiza a vida urbana e orienta a forma como habitamos o território.

Hoje sabemos que essa infraestrutura urbana tem de ser pensada de forma muito mais integrada. Não basta projetar em função do betão e do asfalto. É essencial compreender o solo onde construímos, respeitar zonas de risco, reconhecer os ciclos naturais da água e preservar a estrutura verde que sustenta a biodiversidade e o equilíbrio ambiental.

A reconstrução que agora se inicia deve ser resiliente. Uma reconstrução que integre soluções baseadas na natureza, como o sol e os ventos mais frequentes do lugar; que valorize o conhecimento geotécnico, hoje muito negligenciado; que retenha a água no território; que proteja o solo; e que reforce a relação entre cidade e ecossistema, com uma aposta séria na estrutura verde endógena.

Quando planeamos mobilidade com esta visão, percebemos que não estamos apenas a desenhar ruas: estamos a decidir que cidades queremos deixar às próximas gerações.


© Jornal de Notícias