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O futuro está mais longe

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Nasreen olha-me com um olhar difícil de definir. É como que um sorriso resiliente. Uma inquirição retórica, dirigida ao devir, não a mim. Um olhar de respeito pelo meu académico conhecimento das coisas, adquirido desde a tranquilidade do Portugal que ela escolheu para viver, construído ao longo de viagens ao Médio Oriente que nunca incluíram, por autodeterminação, o seu país. Nasreen é iraniana. É mulher. É livre. E dona de uma clarividência reforçada pelo passado. A imensa maioria do povo iraniano quer o fim do regime dos aiatolas. E se este estranho conflito que agora nos tolhe os dias servir para isso será a alegria de Nasreen - e a hipótese de voltar a casa, ao abraço da família, livre como é aqui.

Mas estarão os EUA e Israel tão interessados na liberdade do povo quanto isso? Nasreen tem consciência de que esse desejo é praticamente exclusivo dela e dos seus pares. "Trump tem o seu objetivo, talvez o petróleo, Netanyahu tem o seu objetivo, dominar, nós temos o nosso, ser livres. Se a perseguição dos objetivos resultar no fim de regime, é ótimo."

O argumento é imbatível, mas a evolução dos últimos dias deixa pouca margem a esse ansiado futuro. Depois de iniciar uma guerra anunciando e alterando aquilo que a justifica - a queda do regime, a obliteração das capacidades nucleares do Irão, ou a mais modesta redução da sua força balística -, o presidente dos EUA passou anteontem da ameaça de genocídio da civilização persa (indiferente ao dito povo que prometeu ajudar nos primeiros dias de conflito) ao anúncio de um cessar-fogo para debater a "base de negociação viável" contida no plano em dez alíneas avançado por Teerão.

Os EUA cederam, ou pelo menos parece, exigindo como única contrapartida a reabertura imediata do estreito de Ormuz, por onde passa mais de 20% do petróleo mundial e cujo bloqueio pelo Irão atirou o Mundo para uma espiral recessiva. E Teerão diz que sim, mas quer cobrar e gerir militarmente a passagem pelo estreito, acabando por se financiar para uma reconstrução que pode muito bem ser bélica - para já não falar nos lucros bilionários obtidos graças à escalada do preço do petróleo nas últimas semanas.

Quanto ao povo, Trump avisara, logo em fevereiro, que, quando terminasse o conflito, seria altura de os iranianos fazerem por controlar o seu Governo. Que é como quem diz, se não o fizerem, o problema não é nosso. Anteontem, o anúncio de trégua por duas semanas não incluiu nem uma palavra sobre o futuro do povo iraniano. E as negociações vão ser conduzidas com o mesmo regime, decapitado mas não derrubado e agora fortalecido com o controlo de Ormuz, uma poderosíssima arma de destruição massiva que não tinha antes de 28 de fevereiro... O futuro de Nasreen ameaça estar mais longe.


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