Os candidatos querem o voto dos religiosos, mas querem ouvir sua voz?
O calendário internacional está repleto de datas que, embora criadas para despertar a consciência pública, correm o risco de se transformar em simples peças de protocolo. O dia 22 de agosto não deveria ser uma delas. Instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2019, o Dia Internacional em Memória das Vítimas de Atos de Violência Baseados em Religião ou Crença recorda homens e mulheres que foram perseguidos, expulsos, aprisionados, agredidos ou mortos por causa daquilo em que acreditavam, ou porque decidiram não acreditar, abandonar uma religião ou mudar de fé.
Segundo declaração divulgada nesta semana pela União Europeia, quase dois terços da população mundial vivem em países nos quais ocorrem graves abusos ou violações da liberdade de religião ou crença. Por trás dessa estatística existem templos destruídos, comunidades dispersas, famílias separadas e pessoas para as quais professar uma convicção continua sendo um ato de coragem.
A violência religiosa, contudo, raramente começa com a primeira pedra lançada contra um templo ou com a prisão de um líder. Antes de atingir o corpo do religioso, a perseguição procura retirar sua legitimidade para falar. Primeiro, determinada crença é caricaturada como irracional; depois, sua presença pública passa a ser considerada inconveniente; em seguida, seus adeptos são admitidos na sociedade somente se aprenderem a esconder aquilo em que acreditam.
Quando essa lógica amadurece, a discriminação profissional, as restrições administrativas, a hostilidade institucional e, finalmente, a violência física encontram um terreno já preparado. Isso não significa, evidentemente, que toda crítica à religião seja intolerância ou que toda controvérsia envolvendo uma igreja configure perseguição. Religiões, instituições e líderes podem e devem ser criticados, investigados e responsabilizados quando violam a lei. Mas as formas extremas de perseguição quase sempre são precedidas pela construção cultural da ideia de que certos grupos religiosos constituem uma presença inferior, perigosa ou ilegítima na vida coletiva.
A política aceita a religião como mercado eleitoral, mas frequentemente resiste a reconhecê-la como fonte legítima de consciência política
A política aceita a religião como mercado eleitoral, mas frequentemente resiste a reconhecê-la como fonte legítima de consciência política
O Brasil não vive um quadro de perseguição religiosa estatal comparável ao de regimes que aprisionam dissidentes, controlam a nomeação de autoridades eclesiásticas, proíbem conversões ou submetem comunidades inteiras à violência. Nossa Constituição oferece proteção robusta à liberdade de crença, aos cultos, às........
