O fim da era humana tradicional
1. Introdução: o fim de uma era
Estamos a viver os últimos anos da Humanidade tal como a conhecemos historicamente até agora. Não se trata de uma extinção biológica, mas sim de uma transformação tão radical que as crianças nascidas nas próximas décadas não conseguirão compreender o modo de vida anterior. Conceitos atuais como a solidão mental (estar a sós com os próprios pensamentos) ou a distinção clara entre memórias reais e memórias sinteticamente implantadas serão tão estranhos para as próximas gerações quanto a vida antes da eletricidade ou da escrita é para nós. A última geração de “humanos puros” está a atingir a idade adulta.
2. O fim dos três pilares da civilização
Em Sapien: Uma Breve História da Humanidade, Harari refere três antigas revoluções que mudaram o curso da Humanidade: 1) a Revolução Cognitiva (há 70.000 anos): que trouxe linguagem e pensamento abstrato; 2) a Revolução Agrícola (há 10.000 anos): com o início da agricultura e povoamentos permanentes; e 3) a Revolução Científica (há 500 anos): com a procura sistemática do conhecimento, o capitalismo e o progresso tecnológico.
Durante cerca de 10.000 anos (desde a Revolução Agrícola), a civilização humana organizou-se em torno de três pilares fundamentais:
Territórios físicos definidos;
Territórios físicos definidos;
Hierarquias sociais baseadas no controlo de recursos materiais;
Hierarquias sociais baseadas no controlo de recursos materiais;
Sistemas de conhecimento transmitidos por linguagem e escrita.
Sistemas de conhecimento transmitidos por linguagem e escrita.
Mesmo as revoluções Industrial e Tecnológica subsequentes mantiveram esta estrutura. Um camponês do século XII e um operário do século XX partilhavam muito mais em comum do que imaginamos. Ambos viviam num mundo físico concreto, trabalhavam com as mãos e os corpos, formavam relações presenciais e dependiam das instituições locais para organizar as suas vidas. As suas identidades eram moldadas pelo local onde nasceram, pela família a que pertenciam e pela comunidade que os acolhia. Este padrão manteve-se relativamente estável durante milénios, criando a ilusão de que a condição humana é fixa e imutável.
Contudo, no presente, a convergência de três novas revoluções está a destruir estes pilares históricos, colocando-nos no limiar da criação de uma era pós-humana no devir próximo.
3. As novas três revoluções simultâneas
A transformação silenciosa que decorre na atualidade baseia-se em três eixos:
A capacidade de tomada de decisão está a ser massivamente transferida dos humanos para os algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial (IA). Nos próximos anos, a IA não escolherá apenas músicas ou produtos, mas decidirá ou influenciará decisivamente sobre carreiras, saúde, finanças e relacionamentos amorosos (através da análise contínua de dados biométricos e neuronais).
Esta mudança criará uma nova divisão filosófica e social entre:
Humanos assistidos: Pessoas que viverão vidas otimizadas por agentes de IA para maximizar o seu bem-estar e a sua produtividade, delegando neles as decisões difíceis.
Humanos assistidos: Pessoas que viverão vidas otimizadas por agentes de IA para maximizar o seu bem-estar e a sua produtividade, delegando neles as decisões difíceis.
Humanos autónomos: Pessoas que manterão o controlo das suas próprias decisões, mas que deverão ter vidas estatisticamente menos felizes, menos saudáveis e menos produtivas.
Humanos autónomos: Pessoas que manterão o controlo das suas próprias decisões, mas que deverão ter vidas estatisticamente menos felizes, menos saudáveis e menos........
