Bem-vindos à política pública da distração: pedagogia ou gestão do ruído?
Bem-vindos à política pública da distração, o modelo de governação que responde com solenidade ao sintoma visível, multiplica polémicas de superfície e adia, mais uma vez, a arquitetura que realmente determina o que os alunos aprendem. Nos últimos dois anos, a Educação em Portugal foi arrastada para uma sucessão de debates altamente mediáticos, quase sempre fáceis de fotografar, enquanto os problemas estruturais permanecem intactos, ou seja, alunos sem aulas, currículos obesos que não preparam ninguém, avaliação fragmentada e um corpo docente exausto pelo trabalho burocrático-administrativo disfarçado de pedagogia. Isto para não falar de um problema sistémico de precariedade nos concursos e colocações que transformou a carreira docente numa espécie de lotaria de sobrevivência.
Não é irrelevante que, em julho de 2025, o ministério tenha apresentado, no mesmo pacote político-comunicacional, quatro temas distintos: smartphones, manuais digitais, aprendizagens essenciais e cidadania. O título oficial da apresentação juntava tudo, num exercício de ‘arrumação cosmética’ digno de nota. A imagem é quase perfeita, uma tutela que agrega objetos simbólicos e temas culturalmente inflamáveis para criar uma sensação de movimento. O problema é que, na escola real, esse movimento raramente sai do papel e dos concursos públicos disfarçados de ações concretas que nunca chegam a ver a luz do dia.
O caso mais óbvio foi o dos smartphones. Transformar a proibição de um dispositivo no grande sinal reformista da escola é confundir contenção com transformação. Reduzir distrações é útil, mas elevar o telemóvel ao estatuto de ‘inimigo público número um’........
