O fim da era da combustão automotiva já começou, mas muitos no Brasil ainda não perceberam
A grande imprensa e boa parte dos analistas de mercado no Ocidente continuam tratando a ascensão dos veículos elétricos chineses como se estivéssemos diante de uma disputa comercial convencional, marcada por barreiras tarifárias, protecionismo, subsídios industriais e guerra de preços. Esses elementos existem, naturalmente, mas não explicam o essencial. O que está acontecendo diante dos nossos olhos é uma ruptura tecnológica, industrial e geopolítica de proporções raras na história moderna.
O século automotivo, moldado durante mais de cem anos pela engenharia mecânica ocidental, está sendo deslocado por uma nova lógica produtiva. Não se trata apenas de trocar gasolina por eletricidade, motor por bateria ou escapamento por tomada. A mudança é mais profunda. A China compreendeu antes dos demais que o automóvel do século XXI deixaria de ser, essencialmente, uma máquina termodinâmica para se tornar uma plataforma digital, elétrica, conectada e permanentemente atualizável.
A estratégia chinesa foi brilhante porque evitou disputar o jogo antigo nos termos definidos pelos vencedores do século XX. Competir diretamente com alemães, americanos e japoneses no aperfeiçoamento incremental dos motores a combustão interna significaria enfrentar décadas de domínio tecnológico, marcas consolidadas, cadeias de fornecedores protegidas, patentes acumuladas e uma cultura industrial fundada na precisão mecânica. A China fez algo mais inteligente: mudou o jogo.
O veículo elétrico moderno não é um carro convencional adaptado com uma bateria. Ele é, cada vez mais, um computador de alto desempenho sobre rodas. A expressão “software-defined vehicle”, ou veículo definido por software, traduz bem essa virada. O automóvel passa a ser uma plataforma integrada de sensores, inteligência artificial, conectividade, entretenimento, navegação, gestão energética, assistência à condução, atualização remota e interação permanente com o usuário e com a infraestrutura ao redor.
É por isso que empresas de tecnologia chinesas, como Xiaomi e Huawei, conseguiram entrar com enorme velocidade no universo automotivo. Elas não chegaram ao setor como fabricantes clássicas de automóveis. Chegaram como empresas de software, eletrônica, conectividade, inteligência artificial, design de experiência do usuário e integração de ecossistemas digitais. E, nesse novo ambiente competitivo, essas competências passaram a valer tanto quanto, ou até mais do que, a velha maestria em pistões, transmissões, bielas e escapamentos.
As montadoras tradicionais carregam hoje um........
