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O que nos torna mulheres?

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28.03.2026

O que nos torna mulheres?

Não se nasce mulher, torna-se mulher. Simone de Beauvoir escreveu essa frase no ano de 1949 em "Segundo Sexo". Mesmo quem não leu o livro conhece a citação, um dos mantras da luta feminista. Mas o que ela quer dizer?

De imediato, me soa como uma sentença de liberdade. Uma definição des-bioligizante. Não somos nossos órgãos sexuais. Eles não me definem.

Não somos tampouco aquelas que usam salto alto, pintam as unhas, vestem saias e blusas decotadas, têm cabelos longos. Regras de feminilidade não tornam ninguém mais ou menos mulher. Essa é uma exigência da ideologia misógina que nos organiza. Exigência que serve para nos manter sob controle, inseguras e ocupadas com outras coisas que não seja identificar o nome de nossos déspotas.

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A frase de Beauvoir é forte porque ela comunica de imediato. Ela fala com nossa necessidade de emancipação da rigidez de um sistema que nos divide em sexos com papeis de gênero muito claros e limitantes para todos os envolvidos e envolvidas.

Portanto, não se nasce mulher. Ninguém nasce mulher. Nós nos transformamos em mulheres. Para o bem e para o mal. Transformadas pela sociedade, pelas normas, pelas regras. Quem tem sorte e tempo consegue identificar seus verdadeiros desejos em construir para si mesma um caminho nesse mundo. Libertar-se das imposições sobre nossa aparência, peso, idade, cor da pele. Libertar-se da obrigação da maternidade, da obrigação de fazer parte de uma família hierárquica dentro da qual o homem manda e a mulher cuida de tudo e de todos arruinando-se pelo caminho.

A jornada rumo à mulheridade é feita de lutas, resistência, sofrimento e glória. Existem aquelas que sabem que estão dentro de um campo de batalha e aquelas que ainda não perceberam onde estão. Mas todas falam a partir do front. Ser mulher é falar a partir do front.

É compartilhar histórias de silenciamentos, abusos, assédios, estupros e assassinatos. É compartilhar histórias de superação, de descobertas, de conquistas e de amor. Para mim, é o que me torna mulher. Olhar para o lado e ver os rostos na minha trincheira.

Não sou mais mulher do que Erika Hilton, do que Amara Moira, do que Duda Salabert. Meu útero não me torna mulher. Minha certidão de nascimento não me fez mulher. Não ter sido mãe não me faz menos mulher.

A palavra "trans" é um adjetivo. Mulher trans. Mulher cis. Mulher alta. Mulher baixa. Mulher arretada. Mulher corajosa. Mulher.

A ideia consensual é a de que mulheres trans levam vantagem no esporte. As pesquisas realizadas até aqui não mostram isso. Mas não importa. Você não estrutura um sistema de opressão apenas com coerção; é preciso fabricar consensos na mesma medida.

Deixo abaixo o link para uma das maiores pesquisas já realizadas sobre o tema trans-generidade e esportes competitivos. Mulheres altas levam vantagem no vôlei. Eis aí uma verdade. Mas isso quer dizer que toda mulher alta vai ser melhor do que as mais baixas? Acho que todos sabem a resposta a essa pergunta.

"O desempenho esportivo envolve condição física, técnica, tática, psicologia, experiência e contexto da modalidade", diz Bruno Gualano, professor e pesquisador que liderou a maior revisão sistemática já publicada sobre o tema. "Não existe um único marcador que capture tudo. Então, a gente usa marcadores gerais de desempenho. Capacidade física é um marcador de desempenho. Força de membros inferiores, força de membros superiores, o consumo máximo de oxigênio, são indicativos. Não necessariamente quem tem esses atributos vai ganhar. Ainda mais quando a gente pensa em um esporte como, por exemplo, futebol, basquete ou vôlei, que envolve um talento inato do sujeito também, habilidades específicas, desempenho coletivo e contingências de uma partida. Isso é muito difícil de mensurar em estudos científicos", explica.

O estudo, como disse anteriormente, não encontrou diferenças significativas entre os marcadores de desempenho físico das mulheres trans e cis.

Para deixar esse assunto ainda mais interessante, não existe um marcador isolado que consiga definir nem mesmo sexo biológico. A ciência mostra que somos feitos das formas mais diversas. Genitália, hormônios e cromossomos organizam-se combinadamente de modos diversos em diferentes corpos. Dividir toda a sociedade em masculina ou feminina é decisão cultural. Focar no sexo-biológico é a forma mais eficiente para controlar os corpos das pessoas com útero. É precisamente aí o berço da doutrinação, do adestramento, da opressão, da dominação. A divisão pretende separar a sociedade em dominadas e dominadores.

As pessoas trans estão nos oferecendo a chance de amadurecermos, de rompermos com as grades das jaulas, de cavarmos um túnel para lugares mais bonitos. Não se nasce mulher, não se nasce homem: tornamo-nos. Somos todos e todas, em alguma medida, pessoas trans na medida em que ao longo da vida nos transformamos para a caixinha de algum gênero e performamos de acordo com a tabelinha de regras. A diferença talvez seja a agência e a consciência sobre os caminhos tomados para nossas transformações.

O que acontece hoje é que sistema patriarcal e heteronormativo está usando as pessoas trans para aumentar a dominação sobre todas as mulheres.

Minha colega Alicia Klein tem hoje um texto em sua coluna que explica bem explicadinho a perversão da nova regra do COI de obrigar todas as mulheres a passarem por exames para detectar seu "sexo biológico". É uma violência imensa, celebrada por todos aqueles que detestam mulheres mas vêem na determinação do COI uma chance de saírem por aí dizendo que "o COI está protegendo mulheres". É exatamente o oposto.

O esporte feminino não precisa do banimento a mulheres trans. Precisa de incentivo. De investimentos. De visibilidade. De responsabilidade. De apoio. Banir uma parte de nós é seguir praticando as mesmas perversidades de sempre. Somos banidas desde pequenas. Somos desencorajadas. Subestimadas. Julgadas por nossa aparência e não por nossa capacidade atlética. Punidas por sermos assertivas, ferozes, competitivas. O que o COI está fazendo com mulheres chama-se mais do mesmo. É transfobia. É machismo. É misoginia. É controle. É dominação. É perversão.

As pessoas trans estão nos oferecendo uma rota de fuga do regime binário da diferença sexual. Teremos a sabedoria e a humildade necessárias para aceitar?

Inscreva-se no canal de Milly Lacombe e Alicia Klein no Youtube

Link para a pesquisa da USP aqui.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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