Quando uma tasca precisa de explicar que é tasca, ainda o será inteiramente?
O espaço de conforto significou, durante anos, espontaneidade, ruído, copos desalinhados sobre a mesa, conversas sem cerimónia e uma cozinha onde o sabor nunca precisou de apresentação. Em Lisboa esse imaginário persiste e continua vivo mas tem vindo a sofrer uma transformação. A tasca tornou-se conceito. Nos últimos tempos multiplicam-se espaços, que recuperam o nome, os pratos, os petiscos e até certos detalhes visuais assentes na tradição popular, mas apresentam-nos filtrados por uma nova estética urbana. Azulejo cuidadosamente escolhido, carta reduzida, iluminação meticulosamente estudada, copos de vinho orgânico e um discurso onde a autenticidade surge quase como argumento de marketing. A velha tasca regressa, mas regressa domesticada.
Nada haveria de errado nisso, não fosse o risco de se confundir memória com encenação. Muitas destas novas casas procuram reproduzir uma informalidade que, paradoxalmente, já vem desenhada ao milímetro. O balcão parece antigo mas foi pensado em projeto, o prego chega em formato cozinha de autor e a sardinha é descrita como........
