A Alienação
Na raiz etimológica desta palavra está a ideia de estrangeiro – «alienus» –, o que nos é estranho, o que vem de fora. Ser-se alienado ou estar-se alienado não é estar no mesmo estádio mental (de saúde mental). Estar alienado pode corresponder a um momento, a uma circunstância. Há um certo grau de alienação quando decidimos estar, durante um tempo determinado, a ver um jogo de futebol, a ver um filme hollywoodesco, a navegar no mar lodoso das redes sociais. Mas ser-se alienado é admitir que o estranho que estranhamos, passe o pleonasmo, somos nós. Ser-se um alienado é já haver em nós o que não sabemos, ou conhecemos e – sobretudo isto – é já admitir como possível que o ato do autoconhecimento não nos interessa. É aqui que estamos: no momento histórico em que, depois de obras como A Rebelião das Massas de Ortega y Gasset, depois de 1984, de Orwell, depois de A Ascensão da Insignificância, de Castoriadis, depois de O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a humanidade (os povos, as raças, as etnias, os grupos sociais que a constituem), escolheu, ou foi levada a escolher, como estratégia de sobrevivência, a alienação.
De nada valeram as obras distópicas, os avisos que vêm das artes – da literatura e da música ao cinema, das artes plásticas ao teatro –, uma vez que a alienação é um dos fins do capitalismo global e o capitalismo, nas suas formulações atuais (tecnofeudalismo para Varoufakis, tecnofascismo para Byung-Chul Han, visa manter intacta a estrutura de consumo como único ‘ismo’ que pode dar sentido ao absurdo de uma humanidade à deriva e que, não por acaso, sabe que está à deriva. Não se trata apenas da vitória do trumpismo, vírus mutante do fascismo, fruto, ele mesmo, do neoliberalismo final, essa extensão natural da árvore do capitalismo e que, nos múltiplos ramos de que se........
