A propósito do dia da Mulher
Naquele dia, antes de mais nada, fez-se a lista de compras. Qualquer par de pés que passe a porta de cá de casa constitui uma maravilhosa desculpa para se cozinhar qualquer coisa diferente. Mas, o par de pés que vinha no barco, que subia as escadas da rua e do prédio devagarinho, contando cada degrau, era um par de pés muito especial.
Quando a minha avó chegou, já os meus pais tinham saído para o supermercado. Sentámo-nos as duas e conversámos sobre os pequenos nadas que nos tinham enchido as agendas. Falávamos de visitas a uma tia e a outra, quando de repente dei por mim baralhada com a genealogia.
Fui buscar papel e, no momento em que me levantei, descobri a lista de compras que tinha feito com a minha mãe esquecida em cima da bancada. Não é inédito. Aliás, mesmo quando não fica esquecida, é rara a vez que não se trazem no saco coisas a mais ou a menos. No fundo, a lista de compras é um guia muito pouco respeitado, por isso tirei-a da cabeça e fui escrevinhar o meu mapa de pessoas.
O papel em cima da mesa rapidamente se encheu de nomes e de setas e foi para lá que voltámos a seguir ao almoço. Depois de comer eu, a minha mãe e a minha avó ficámos sentadas à mesa agarradas às chávenas de café vazias que davam a impressão de ainda nos aquecerem as mãos — a impressão de que o momento ainda não tinha acabado.
No desenrolar da conversa fez-se chá e acendeu-se a luz. Foram horas maravilhosas, mas insuficientes. Nunca é suficiente. Gostava de poder beber as histórias delas até sentir que conheço o que foram as suas vidas, até conseguir ver o que era o tomate a fermentar no lagar ou os grandes acampamentos no verão. Se pudesse, desaparecia naquelas palavras que escondem qualquer coisa que me faz falta. Não sendo isso possível, resta-me marcar entrevistas.
Foi nesse dia que surgiu a vontade, a urgência em registar tudo o que estava a ver e a ouvir. Atrás dessa urgência estava um medo de esquecer vertiginoso e angustiante. Pensei em transformar esse medo num empurrão para a ação, uma ação que seria um novo projeto de recolha, de pesquisa, de escrita, talvez um documentário. Depois lembrei-me que ultimamente me tenho sentido assombrada pela palavra "projeto" e esta urgência tornar-se-á paralisante se me puser a criar expectativas. Então, decidi que não lhe chamaria nomes e deixar-me-ia surpreender pelo caminho.
Mas como é que se regista a magia de ter três gerações de mulheres sentadas à mesa para conversar? Mais, será o medo de me esquecer razão suficiente para tentar registar algo tão belo? E, sobretudo, como é que faço para deixar de sentir que o que pretendo fazer pode não ser mais do que uma lista de compras?
Lido o Mulheres de uma aldeia, de Teresa Joaquim, comecei a perceber que esta urgência que sinto, sentiram e sentem muitas outras pessoas. A necessidade de capturar estes momentos de partilha que se dão à beira do lavadouro ou à mesa depois de almoço não é inédita. Mas toda essa beleza me imobiliza. Talvez seja precoce isto, este texto, mas, a propósito do dia da Mulher, achei que fazia sentido partilhar o momento em que descobri esta forma de celebrar que passa despercebida e se faz no dia-a-dia; esta celebração que é também resistência.
O curtíssimo Mulheres e a Ficção, de Virginia Woolf, fez-me perceber um pouco melhor porque é que é tão natural o exercício de lembrar com elas. Woolf explica no seu ensaio que o trabalho da mulher e a sua herança foi e, em certas instâncias ainda é, invisível ou efémero: as belas refeições comem-se, as casas vendem-se e os filhos vão às suas vidas. Restam, portanto, sobretudo histórias. Assim, o não sair da cadeira a correr, o escolher ficar e escutar, o escolher ser testemunha é já qualquer coisa. Procurar compreender e fazer viver esta herança também faz parte de tudo isto que é o dia da Mulher — e talvez só por isso qualquer registo que possa daí surgir seja, por natureza, mais do que uma lista de compras.
*retirado da introdução à Fábrica de Criadas, de Afonso Cruz (2024)
