Goya, buracos negros e os testículos de Úrano
Para onde quer que olhemos, mesmo na mais estreladas das noites, o negro prevalece sempre; a escuridão do espaço interestelar é sempre mais intensa do que a luz emitida por milhões de estrelas, nebulosas e galáxias. A astrofísica chama “matéria escura” à matéria hipotética que não emite radiação suficiente para ser detectada pelos nossos instrumentos. Deduzimos que existe a partir dos efeitos gravitacionais que exerce sobre a matéria visível. A composição da matéria escura é desconhecida.
O facto de esta matéria escura ter mais massa do que a parte visível do universo sugere, por analogia, que o preto – ou melhor, a ausência de cor, como muitos preferem dizer – participa tanto do indefinido como do abissal. Todo o coração aventureiro, em algum momento, confronta o mais profundo dos abismos. A sua noite escura.
Conta a mitologia grega que Cronos, ou Cronos-Saturno, num acto de rebeldia, castrou o seu pai Úrano, a abóbada celeste: dos testículos de Úrano, que caíram ao mar, diz-se, nasceu Afrodite, a deusa do amor – uma tentativa dos céus para preservar as leis do afecto. Poucas imagens serão tão duras e eloquentes como esta na demonstração de que o tempo é, em certa medida, a castração da eternidade, sobretudo quando consideramos que Saturno virá, com o passar dos séculos, a reger a agricultura e a Idade de Ouro, tornando-se, por isso mesmo, perito no uso da foice e na escolha das sementes. E bem sabemos quanto uma semente e o tempo estão umbilicalmente ligados.
Se o mito citado nos ensina alguma coisa, é que o tempo, ao manifestar-se, desmembra e fragmenta aquilo que é invisível e íntegro; a sua tarefa é separadora e cortante, enquanto a causa celeste de que procede é infinita e incomensurável. Herdeiro deste saber, Goya pintou, no século XIX, Saturno devorando os........
