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Paulo RamosObservador |
Os livros que verdadeiramente lemos não permanecem em nós como frases, mas como lugares. Regressamos a eles quando o mundo se estreita e a luz chega...
Izana levou três anos a erguer a Cabana de Ler do Shogun. Não deixou, contudo, de contar histórias.
Nenhum mestre sério entrega de imediato os segredos da beleza. Antes de desenhar uma rosa, era preciso aprender a reconhecer o pó que ela deixa no...
Só a ideia de que o arco-íris pudesse desaparecer entristecia Sei até às lágrimas. Mas bastava imaginá-lo sobre o céu para que lhe surgisse nos...
Nos 25 anos dos ataques às torres gémeas.
Quando o medo não encontra explicação, procura um rosto. E escolhe quase sempre aquele que aprendera a desprezar. Culpar judeus é um hábito tão...
Ler é deixar que os mortos retomem a palavra sem exigirem que abandonemos o presente. Um livro não ressuscita literalmente quem o escreveu; oferece,...
A beleza pacifica-nos porque interrompe, ainda que por um breve momento, a violência com que desejamos possuir e explicar.
A beleza não apaga as feridas. Redime-nos de outra maneira, mais discreta e mais verdadeira: impede que a realidade se reduza à sua evidência...
Talvez Ésquilo nos ensinasse, enfim, a olhar para os mísseis que cairão hoje à noite sobre os novos Persas com aquele espanto e estranha...
Buñuel e Almodóvar falam, em suma, da estranheza da vida e de como mal somos outra coisa senão frágeis cascas, levadas e trazidas pelos nossos...
Talvez seja esse o segredo último da fotografia: não o rosto de Whitman, nem a forma exacta das asas, mas o breve entendimento silencioso entre um...
O trabalho da interpretação, quando fiel à espessura poética do real, não consiste em reduzir o símbolo a conceito, mas em deixá‑lo desdobrar...
Eis o escândalo de Afrodite: ela é a autoridade privada de lei, poder desarmado da norma, seduz precisamente porque não ordena, porque não manda,...
Entre o mistério da fidelidade aos livros e as histórias concretas de quem os guarda, abrem-se séculos em que a fragilidade do liber se confunde...
Pensei em Amr Kunta, nas bagas vermelhas, nos livros com pele de cabra, na rosa que viu duas vezes e no rouxinol que nunca encontrou. Tudo nele...
Aquilo que o tempo protegeu nas grutas escondidas da nossa memória, que escapou aos filhos das trevas e às mãos calejadas da Fretensis, é o que...
Quando a primeira borboleta e o primeiro ailanto se reencontraram, leram no cruzamento dos seus destinos que as suas vidas não tinham esquecido uma o...
Calar não é fracasso da linguagem, mas gesto de fidelidade ao real.
Dias antes de aportar, Jaufré Rudel adoeceu gravemente. Dando-o já por morto, em Trípoli o levaram a uma estalagem de janelas verdes. Alguém fez...
Quando se assinalam oitenta anos sobre o esmagamento do Levantamento do Gueto de Varsóvia, permanece esse sussurro obstinado – “Lede, lede” –...
A cultura nasce sempre sob suspeita, capturada por tiranos, traficada por impérios, enterrada por medo de que o poder a converta em ornamento ou em...
Tanto o indivíduo como a comunidade constroem o seu passado não apenas com aquilo que foi, mas com aquilo que se torna suportável lembrar.
A História humana constrói-se tanto pela memória quanto pelo esquecimento imposto, tanto pela revelação quanto pela ruína.
O que Landa e os seus herdeiros nunca chegaram a saber é que há um ponto em que a dádiva deixa de ser gesto e se torna ferida aberta, um ponto em...
Quando as borboletas foram libertadas, elevando-se numa súbita respiração comum que parecia suspender o próprio tempo, o gesto de Teodora...
Parte da alegria de andar pelo mundo antigo e de lidar com fenómenos aparentemente remotos como a tragédia reside no quão pouco sabemos e no quão...
A tragédia é a forma de arte do entre-tempos, geralmente entre um mundo antigo que está a desaparecer e um novo mundo que está a emergir.
Esta melancolia etimológica estendeu-se a todas as línguas romance, embora cada uma a seu modo diga – ou melhor, cale –a escuridão interior.
O preto é a não-cor que tudo contém e nada oferece, tudo absorve e, apesar disso, contribui, a partir do seu poderoso vazio, para a criação de...
“Um pensamento vale mais do que o mundo”, escreveu S. João da Cruz, e Charlot sempre antepôs o seu pensamento ao mundo.
O reencontro não é um fecho, mas uma espécie de dobra no tempo, um ponto em que o antes e o depois se encostam um ao outro.
Isak Dinesen foi o pseudónimo escolhido pela Baronesa Karen Blixen para assinar muitos dos seus livros. A Baronesa sempre adorou estas mudanças de...
A história do conhecimento é, paradoxalmente, a história das suas perdas. Aquilo que hoje tomamos como herança – teorias científicas, práticas...
No dia 3 de junho de 17 a.C., a luz do dia fenecia quando, subitamente, se elevou no ar suave acima do Monte Palatino, em Roma, o som puro e agudo de...
De todas as artes, a música foi a única que colaborou no extermínio de judeus organizado por alemães entre 1933 e 1945. Não a pintura, não a...
Quando Carson McCullers acabou de escrever Frankie e o Casamento, não completara ainda trinta anos: à semelhança de um herói trágico antes da...
Certas vidas são anomalias que não aceitam explicação. Ou então são como os oráculos antigos – falam apenas para quem consente não...
Antes de cada initium não há vazio, mas uma tensão, uma compressão daquilo a que não se consentiu ainda surgimento. Aquilo a que os textos...
Há um momento em que a expectativa – gasosa, imponderável, subtil – se precipita, condensa, e começa a ganhar forma. Antes dele, o desejo...
A pureza não é uma virtude, nem uma clareza, nem aquela brancura ideal de que as religiões e os sistemas morais procuraram, tantas vezes, fazer...
Adventus, dizia-se antigamente – chegada, o progresso de um passo que cremos ouvir antes de ele aparecer. Toda a chegada é dúplice: algo está...
Há manhãs em que o mundo parece mais leve porque algo lhe foi retirado. Talvez não mais leve, mas mais fino, como um pergaminho raspado uma e outra...
Existe, nas margens do tempo, um espaço que não nomeamos jamais. Tocamo-lo levemente, atravessamo-lo sem o saber. É a sombra deixada por uma...
O corpo é a primeira noite da nossa herança. Antes do primeiro vagido, antes que a linguagem ferisse as paredes macias do ouvido, já estávamos...
A consciência começa onde termina o gesto, naquele preciso lugar onde o corpo, esperando encontrar outro, encontra apenas ar: o espaço que se abre...
No desejo, há um silêncio bem mais antigo do que a fala: no princípio era o Verbo; mas antes da palavra, era a boca; antes do amor, era a fome. E...
Existirá uma cidadela interior capaz de nos proteger da vulnerabilidade? Não falta quem diga que sim… Quem sabe, contudo, a resposta não seja...
Os romanos traduziram a palavra grega epifania por inauguratio, pois a pintura romana não representa a cena anterior à sua contemplação:...
“Homem de três letras” – era a perífrase que os romanos usavam para dizer ‘ladrão’. Em latim, ladrão diz-se fur. Os antigos romanos,...