Testemunho de uma mãe alienada (III)
No artigo anterior acompanhámos os primeiros acontecimentos que uma mãe alienada identificou como sinais de que alguma coisa começava a mudar na relação familiar. O divórcio tinha sido consensual, tinha sido estabelecida uma organização da guarda dos filhos em semanas alternadas e, apesar disso, começaram a surgir diferenças entre o pai e a mãe relativamente ao cumprimento do que havia sido acordado.
A mãe também identificou uma narrativa por parte do pai na qual era, progressivamente, responsabilizada perante os filhos pelo divórcio, pela organização das semanas e pelas regras que procurava manter.
Quando o poder e o controlo já existiam durante o casamento
Regressando mais atrás na história da família para analisar a sua situação de alienação, esta mãe considerou ainda que algumas das dinâmicas que mais tarde se lhe tornaram evidentes já estavam presentes durante o casamento: “E, na verdade, penso que isto já tinha começado durante o casamento. Na prática, considero que já existia uma dinâmica de manipulação, poder e controlo, que também estava na origem de muitos dos nossos conflitos, porque a última palavra acabava por ser sempre a do pai. As crianças percebiam isso e sabiam quem tinha mais poder dentro da família. Penso que, de alguma forma, isso também as levava a sentir necessidade de se colocarem do lado de quem percebiam como sendo o mais forte”. Este testemunho introduz uma dimensão importante para compreendermos a história tal como esta mãe alienada a viveu: a separação conjugal não significa necessariamente que as dinâmicas relacionais existentes durante o casamento desapareçam no momento do divórcio.
Neste caso, a mãe descreveu uma relação em que sentia que a última palavra pertencia habitualmente ao pai e considerou que os filhos percebiam essa diferença de poder dentro da família. Quando uma criança percebe um dos pais como sendo a figura mais forte ou com maior poder, pode procurar adaptar-se a essa realidade, aproximando-se de quem sente que tem maior controlo sobre a situação. Esse posicionamento pode funcionar como uma forma de proteção perante o conflito, sobretudo quando a criança sente que contrariar essa figura poderá ter consequências na relação.
A saída do prédio e uma mudança na dinâmica familiar
Depois do divórcio, a mãe viveu aproximadamente um ano num apartamento do pai situado no mesmo prédio em que este vivia. Essa foi uma opção inicialmente assumida porque se considerava que a proximidade entre as casas dos pais permitiria às crianças circular mais facilmente entre ambas. Mas veio, segundo a mãe, a dificultar a manutenção da organização em semanas alternadas. Por isso decidiu sair desta casa e adquirir uma outra, própria, noutro local. Sobre este assunto, a mãe recordou-nos que: “Depois do divórcio, permaneci durante cerca de um ano naquele apartamento, no mesmo prédio do pai das crianças. Foi um período de transição. Entretanto, comprei uma casa e mudei-me para muito perto, no mesmo bairro e, inclusive, em frente à escola das crianças. Foi a partir dessa mudança para a minha nova casa que, na minha perspetiva, a alienação parental começou a manifestar-se de uma forma muito mais evidente e dramática. Foi aí que começou verdadeiramente todo o processo e também um período de grande sofrimento para a nossa família. A maior vítima foi, sem dúvida, o meu filho mais velho. Mas a minha filha mais nova também foi afetada. Embora não tenha sido envolvida de forma tão direta no processo, acabou por sofrer indiretamente e por ser também muito afetada por tudo aquilo que estava a acontecer”. Para esta mãe, a mudança de........
