Assuntos quotidianos
Entre muitas coisas atinadas, Frei Lourenço da Ressurreição, um carmelita descalço que viveu no século XVII, em França, dizia que estava mais unido a Deus quando tratava dos seus assuntos quotidianos do que quando os punha de parte para se dedicar às suas devoções e à oração.
Para mim, que não acredito em Deus e vou morrer em pleno século XXI, a tirada é deveras brilhante. Raios partam o frade! Na prática, acho que esta atitude funciona como chave da salvação e posso aplicá-la a todos os níveis da existência, entre os quais este que aqui me traz todas as semanas – a escrita. O segredo da sua presença regular está em deixá-la acontecer sem preocupação maior, sem objetivo traçado, sem fim definido, como se a escrita fosse, por exemplo, aquele homem que andava à procura duma cabra perdida nas serras de Santo António e, de repente, encontrou um cadáver humano pendurado numa árvore, com uma corda ao pescoço, já quase feito esqueleto.
Também acontece tantas vezes, na vida como na escrita, me faltarem........
