Duzentos euros. Uma vida
Hugo Dias tinha 47 anos e vivia na rua. Na madrugada de 22 de Julho de 2024, passou por uma bomba de gasolina no Feijó, em Almada. Ia a caminho do café da irmã. Em cima de uma arca congeladora, encontrou um telemóvel esquecido. Um iPhone 11. Duzentos euros. Levou-o.
O dono do telefone, um estudante do 12.º ano, voltou à bomba. Soube que um homem tinha levado o aparelho. Foi atrás dele, acompanhado por um amigo. Encontraram Hugo Dias. Obrigaram-no a devolver o telemóvel. Devolveu. Não bastou. Dois socos derrubaram-no. Caiu no chão. Depois vieram os pontapés. Na cabeça. No tronco. Nos membros. Enquanto batiam, gritaram: “Já não roubas mais, drogado.”
Deixaram-no no chão. Não chamaram socorro. No dia seguinte, pediram passaporte urgente para sair do país. Os bombeiros de Cacilhas transportaram Hugo para o Hospital Garcia de Orta. Morreu lá. Só.
A Polícia Judiciária de Setúbal deteve o primeiro arguido em Dezembro de 2024. O segundo entregou-se em Janeiro de 2025. Ficaram em prisão domiciliária. Foram acusados de homicídio simples. O julgamento correu no Tribunal de Almada. A sentença saiu esta semana. Pena suspensa. Nenhum dos dois dormiu uma noite na cadeia.
Duzentos euros. Uma perseguição. Uma surra. Uma morte. Pena suspensa.
Hugo Dias não tinha morada fixa. Tinha uma irmã que lhe abria a porta de um café. Tinha um nome. Tinha 47 anos. Tinha uma vida que, por mais frágil que fosse, era sua. E era inviolável. Não há circunstância, historial ou vulnerabilidade que retire a uma pessoa o direito de não ser espancada até à morte.
Não me compete discutir a moldura penal. Mas posso perguntar o que ela diz sobre nós.
Que sociedade é esta em que dois jovens perseguem, recuperam o que era seu e, depois de recuperado, continuam a bater? Que país é este em que a frase “já não roubas mais, drogado” funciona como sentença antes da do tribunal?
Hugo Dias era sem-abrigo. Era toxicodependente. Furtou um telemóvel. Nada disto justifica um único pontapé. Nada disto transforma uma vida em coisa descartável. Nada disto autoriza que a morte de um ser humano pese menos do que a de outro.
Portugal tem mais de 14 mil pessoas em situação de sem-abrigo. O número duplicou desde 2018. Muitas são invisíveis até morrerem. Algumas nem aí. Vivem à margem do sistema de saúde, fora do radar da segurança social, sem acesso efectivo à justiça. Não existe para estas pessoas um sistema que funcione antes da tragédia. Só depois. E mesmo depois, mal. Se Hugo Dias tivesse sobrevivido e apresentado queixa, teria tido advogado? Teria sido ouvido? Ou seria, como tantos outros, um nome sem peso num processo sem pressa?
A dignidade não se ganha com morada fiscal. Não se perde com a dependência. Não se mede pelo valor de um telemóvel. Não se suspende com a pena. A dignidade ou existe para todos ou não existe para ninguém.
Hugo Dias encontrou um telemóvel. Ninguém o encontrou a ele.
