Lula no Superior Tribunal da Globo
A entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva ao Jornal Nacional, nesta quinta-feira, 27 de agosto, tinha tudo para ser uma oportunidade de o principal telejornal do país colocar diante do eleitor aquilo que realmente deveria interessar em um ano eleitoral: o que o presidente pretende fazer, quais são suas prioridades, o que entregou ao país e quais desafios pretende enfrentar.
Mas, para quem acompanhou a entrevista com um mínimo de atenção, a impressão deixada foi outra. Mais do que uma sabatina, assistiu-se a uma espécie de julgamento televisivo. A pauta parecia partir de uma premissa: Lula precisava se defender. E talvez seja justamente aí que esteja o principal mérito do presidente: ele não aceitou o papel que lhe reservaram.
Desde a primeira pergunta, relacionada às investigações envolvendo seu filho Fábio Luís, a entrevista caminhou por um terreno conhecido. Lula reafirmou que não pretende proteger ninguém por ser seu filho e que, se houver crime comprovado, que haja investigação, julgamento e punição. É uma posição que, convenhamos, não deveria causar surpresa. Mas parece que, no ambiente político-midiático brasileiro, a resposta só é considerada satisfatória quando atende à narrativa previamente construída.
A questão é que Lula não entrou no jogo. O presidente não estava ali para pedir absolvição. Um dos momentos mais reveladores ocorreu quando a entrevista resgatou acusações e personagens ligados ao entorno do governo. Ao ser questionado sobre seu ex-chefe de gabinete, Lula respondeu de maneira direta que, se o homem precisava de dinheiro, poderia ter pedido um empréstimo a ele, e não a uma lobista.
A resposta desmontou aquilo que poderia ter sido transformado em uma insinuação maior. Em vez de aceitar a associação sugerida pela pergunta, Lula deslocou a conversa para um ponto elementar: ter relação pessoal com alguém não significa responder criminalmente pelos atos dessa pessoa. E o presidente foi além: deixou claro que, se houver culpa, ninguém será protegido por ele. Nem filho, nem aliado, nem amigo.
Foi justamente essa capacidade de não perder o controle que marcou o desempenho de Lula na “inquisição” imposta a ele na Globo. O curioso é que a entrevista parecia esperar do presidente uma reação emocional. Um tropeço. Uma frase atravessada. Um momento que pudesse ser recortado em trinta segundos e transformado em munição para as redes sociais ou para o acervo anti-Lula da emissora dos Marinho. Não aconteceu, porque Lula conhece bem esse terreno. Conhece porque passou décadas sendo entrevistado, atacado, questionado, acusado, condenado injustamente e também porque já aprendeu que, em determinados ambientes, a pergunta pode carregar dentro........
