Siga o dinheiro: os milhões que cercam Flávio Bolsonaro e Dark Horse
Um banqueiro investigado, um operador financeiro que relatou à Procuradoria-Geral da República o transporte de malas de dinheiro, um fundo nos Estados Unidos, um contrato de R$ 157 milhões da Prefeitura de São Paulo, emendas parlamentares e uma produtora que movimentou R$ 19 milhões em apenas 51 dias. À primeira vista, parecem histórias independentes. Mas, ao seguir o dinheiro que circulou em torno de Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro, os investigadores encontraram conexões entre personagens, organizações e operações financeiras que inicialmente pareciam pertencer a mundos diferentes.
A Polícia Federal tenta agora responder às perguntas que surgiram desse emaranhado: de onde saiu o dinheiro, por quais contas passou, quem decidiu os pagamentos, quanto chegou efetivamente à produção e que outros destinos os recursos tiveram. Duas grandes trilhas aparecem na investigação. Uma parte de Daniel Vorcaro e do universo do Banco Master, atravessa operadores financeiros e chega aos Estados Unidos. A outra começa em dinheiro público, passa por emendas parlamentares e por um contrato milionário da Prefeitura de São Paulo e entra numa teia de organizações e empresas relacionadas à produtora Karina Ferreira da Gama. As duas acabam se encontrando em Dark Horse.
E Flávio Bolsonaro aparece no começo de uma delas.
“Precisamos honrar os compromissos”
Flávio não apenas apresentou Dark Horse a Daniel Vorcaro. Ele negociou o dinheiro. As tratativas chegaram a US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões. Mensagens e áudios encontrados pelos investigadores mostram o senador tratando diretamente com o banqueiro e cobrando a liberação das parcelas. Em setembro de 2025, quando os pagamentos atrasaram, Flávio advertiu que, na reta final, era preciso “honrar os compromissos”. Oito dias depois, Vorcaro transferiu mais US$ 1,6 milhão ao fundo Havengate, nos Estados Unidos.
No total, aproximadamente US$ 12,3 milhões — mais de R$ 60 milhões — chegaram ao circuito financeiro montado para o projeto. Documentos posteriores revelaram pagamentos além daqueles inicialmente reconhecidos publicamente por Flávio. É por isso que o candidato é hoje formalmente investigado no STF no inquérito sobre o financiamento do filme. A PF apura corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e o destino final dos recursos.
Mas a história fica mais interessante quando o dinheiro começa a andar.
Do banqueiro às malas de dinheiro
Entre Vorcaro e Dark Horse aparece Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Dono da Entre Investimentos e Participações e operador ligado ao banqueiro, Mineiro decidiu colaborar com a Justiça e teve seu acordo homologado pelo ministro André Mendonça. Seu relato ajuda a compreender o ambiente financeiro no qual o filme foi financiado: segundo ele, fazia remessas determinadas por Vorcaro e providenciava grandes quantidades de dinheiro vivo, transportadas, em algumas ocasiões, em malas.
A Entre aparece nos documentos como uma das empresas utilizadas para movimentar recursos determinados pelo banqueiro. E uma dessas operações chama particularmente a atenção. Em fevereiro de 2025, quando havia dificuldades para realizar pagamentos, Vorcaro indicou que a operação poderia ser feita “via Entre”. Em 13 de fevereiro, a empresa enviou US$ 2 milhões ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. Apenas onze dias depois, em 24 de fevereiro, o Havengate assinou contrato com a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.
O dinheiro tinha atravessado a fronteira. E encontraria ali outro........
