Portugal e o declínio da promessa social
O sucesso de uma economia não se esgota na evolução dos seus indicadores. Revela-se também na capacidade de transformar crescimento em oportunidades, trabalho em património e prosperidade em mobilidade social. Quando essa ligação enfraquece, o debate deixa de limitar-se aos números. Passa a centrar-se na solidez do contrato social.
É esse o desafio que Portugal enfrenta hoje. O desfasamento entre a realidade estatística e a experiência quotidiana tornou-se suficientemente amplo para alimentar uma perceção crescente de bloqueio social. Os principais indicadores permanecem favoráveis, mas muitos cidadãos sentem que o progresso deixou de lhes pertencer.
Quando a perceção coletiva deixa de acompanhar os resultados alcançados, a questão ultrapassa o domínio da política económica. Passa a assumir uma dimensão institucional, porque atinge a confiança que sustenta qualquer democracia.
O paradoxo é evidente. Nos últimos anos, a economia portuguesa tem crescido, em termos gerais, acima da média da área do euro, mantendo níveis historicamente baixos de desemprego e uma trajetória consistente de redução da dívida pública.
A mais recente avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico reconhece a resiliência da economia portuguesa perante os choques internacionais, mas identifica igualmente os bloqueios estruturais que continuam a limitar o crescimento do rendimento das famílias: baixa produtividade, envelhecimento demográfico, escassez de mão-de-obra qualificada e um mercado habitacional incapaz de responder à procura.
É neste desfasamento que os bons resultados deixam de traduzir a experiência de uma parte significativa da sociedade. Enquanto os principais indicadores macroeconómicos melhoram, uma parte da classe média sente que a sua posição económica se fragiliza.
Durante décadas, pertencer à classe média representou muito mais do que atingir um determinado nível de rendimento. Correspondia à convicção de que o trabalho........
