Os novos capitães da areia
Em Ceuta, a fronteira voltou a revelar a sua face mais cruel. As imagens de milhares de pessoas a entrarem em território espanhol, muitas delas pelo mar, desencadearam de imediato a habitual disputa política: quem falhou, quem facilitou, quem deveria ter antecipado, que fronteira deve ser reforçada e que Estado deve pagar a resposta. Tudo isto merece apuramento. Mas há uma questão anterior, mais incómoda e mais humana: quem são estas pessoas para aceitarem arriscar a vida no mar, caminhar sem destino e entregar os seus filhos — ou a si próprios, quando ainda são crianças — a uma promessa publicada numa rede social?
Os acontecimentos recentes mostram que muitos dos que avançaram para Ceuta foram mobilizados por informações falsas difundidas nas redes sociais, segundo as quais a fronteira estaria aberta ou a entrada em Espanha garantiria automaticamente a permanência. Não foram apenas vítimas de uma mentira digital. Foram pessoas já colocadas num estado de tal desespero que a mentira se tornou plausível, porque a alternativa lhes parecia ainda pior. A manipulação só encontra terreno fértil onde existem pobreza, ausência de perspetivas, violência, desemprego, exclusão e a convicção de que ficar é, muitas vezes, tão perigoso quanto partir.
É neste ponto que a discussão pública costuma falhar. Procura-se a origem da falha diplomática, a insuficiência do controlo fronteiriço ou a responsabilidade de Marrocos, de Espanha ou da União Europeia. Mas fala-se pouco da condição humana de quem atravessa. É mais confortável discutir números do que reconhecer que, por detrás de cada entrada, existe uma vida que chegou ao limite. E é ainda mais fácil esquecer isto quando os que chegam são crianças.
Os menores não acompanhados são a expressão mais grave desta crise. Em Ceuta, centenas de crianças e adolescentes ficaram sem família, sem abrigo estável e sem qualquer garantia imediata de continuidade de proteção. A pressão sobre os mecanismos de proteção infantil tornou-se evidente, colocando em causa a capacidade de........
