“Send them back”
A 17 de junho, no plenário de Estrasburgo, vários deputados do Parlamento Europeu levantaram-se e começaram a cantar. Cantaram em inglês, de punho no ar, “send them back”, que os mandassem de volta, enquanto do outro lado da sala respondiam “shame on you”, vergonha. Acabava de ser aprovado, por 418 votos contra 218, o novo Regulamento dos Regressos, aquilo a que a imprensa já chama a lei das deportações. Confesso que tive de ver o vídeo duas vezes. Um parlamento europeu, em 2026, a entoar em coro o cântico que aprendemos a associar aos comícios de Donald Trump e às bancadas do Brexit. Não era uma claque de futebol. Eram legisladores.
Vale a pena saber o que aprovaram, porque é bastante mais do que um slogan. A nova lei permite deter uma pessoa até 24 meses, prevê o envio dos seus dados biométricos para o país de origem, autoriza buscas em casas particulares para localizar quem deve ser expulso, fixa proibições de entrada que podem chegar aos 10 anos, e retira ao recurso o efeito de suspender a expulsão, de modo que se pode mandar alguém embora antes que o juiz decida se a expulsão é sequer legal. E cria os chamados “return hubs”, centros fora do território europeu onde se deposita gente sem ligação nenhuma àquele país, presa longe da Europa e igualmente longe de casa. A própria palavra “regresso” é uma mentira, porque estas pessoas não regressam a sítio algum. São arrumadas algures.
E quem cantou? Convém saber a que família pertencem. O coro vinha sobretudo do grupo a que deram o nome pomposo de Patriotas pela Europa, fundado por Viktor Orbán e presidido por um delfim de Marine Le Pen, e onde se juntam a Liga de Salvini, o Vox espanhol, o partido de Geert Wilders e a extrema direita austríaca. É a internacional dos que prometem devolver a Europa a uma pureza que nunca existiu. E não nos iludamos: o mesmo cântico canta-se cá, na nossa língua, pela mesma gente.
Mas há uma pergunta a que esta gente nunca responde, e é a única que interessa. Que imigrantes é que eles afinal querem? Porque ninguém grita “send them back” ao investidor que compra o visto dourado, ao reformado abastado do norte da Europa, ao nómada digital que abre um café de matcha e faz subir as rendas do bairro. O cântico nunca é para esses. É sempre para o outro, o que veio de barco, o que limpa os hospitais e levanta as paredes. Não é que não queiram imigrantes. Só os querem de um certo tipo, por uma certa porta, e de preferência sem direitos. Querem o trabalho. Não querem a pessoa.
O Orbán é a prova viva disto, e quase........
