Trumpismo de Flávio Bolsonaro fragiliza lero-lero da moderação
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Colocando o marketing adiante do projeto de governo, Flávio Bolsonaro se vende como exemplar do bolsonarismo moderado. Neste sábado, repetindo um raciocínio que passou a cultivar como mantra, disse que Jair Bolsonaro "vai ser sempre alguém que eu vou consultar para tomar decisões, mas o candidato sou eu".
Fez a declaração na cidade norte-americana de Dallas, no estado do Texas. Ali, participa como convidado ilustre da CPAC, uma conferência que reúne devotos de Trump no maior evento conservador do planeta. Um indício de que o bolsonarismo light do presidenciável do PL vale apenas até certo ponto —o ponto de interrogação.
Ao discursar, Flávio ornamentou sua oratória com fotografias do pai, posando como presidente do Brasil ao lado de Trump em 2019, na primeira passagem dele pela Casa Branca. Exibiu também fotos da penúltima internação hospitalar de Bolsonaro, agora um condenado a 27 anos de cadeia por tentativa de golpe.
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Flávio insinuou que não houve no Brasil uma conspiração antidemocrática, mas mera perseguição política: "A acusação formal é similar à que o presidente Trump enfrentou: insurreição. Soa familiar?". Evocando a facada de 2018, prosseguiu: "Tentaram assassiná-lo, assim como tentaram fazer com Donald Trump. Não conseguiram. E agora ele está na prisão, assim como Donald Trump estaria se vocês não tivessem lutado com sucesso para salvá-lo. Nós brasileiros ainda estamos lutando."
Na sequência, Flávio deu a entender que houve fraude na contagem de votos que deu vitória a Lula em 2022. Declarou que "o grande desafio" de 2026 é obter "eleições livres e justas". Antecipando a resistência ao reconhecimento de um eventual resultado adverso, disse que, "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, vamos vencer".
Num prenúncio do que está por vir, Flávio condicionou a legitimidade da sucessão brasileira à interferência dos Estados Unidos. Fez pior, rogando por uma intervenção.
"Meu apelo aqui, não apenas aos Estados Unidos, mas ao mundo livre inteiro, é este: observem a eleição do Brasil com enorme atenção. Aprendam e entendam nosso processo. Monitorem a liberdade de expressão do nosso povo. E apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente". Faltou definir pressão diplomática.
Num instante em que o irmão Eduardo Bolsonaro faz gestões nos Estados Unidos pela tipificação do PCC e do Comando Vermelho como terroristas, Flávio realçou a contrariedade de Lula. "Ele usou lobby pesado com certos conselheiros americanos para evitar que os dois maiores cartéis de drogas do Brasil fossem classificados como organizações terroristas."
Em entrevista concedida antes do discurso, Flávio deu uma ideia do que pretende fazer se for eleito. Embrulhará o desejo do trumpismo para presente. "Não vou pedir para o Trump designar ninguém", disse Flávio. "Eu vou designar PCC e Comando Vermelho como terroristas, já que o Lula não teve coragem de fazer".
A lógica, o bom senso e a legislação brasileira não igualam traficantes de drogas a terroristas. O tráfico barbariza para obter lucro. O terrorismo, por razões políticas, religiosas ou raciais. As facções se infiltram no Estado. O terror coage os regimes. Ao confundir as coisas, Trump mantém entreaberta a porta que leva militares americanos a intervir na soberania alheia.
Durante a campanha, Flávio será cobrado a explicar como reagiria se, chegando ao Planalto, se defrontasse com a conversão da nova classificação em pretexto do governo dos Estados Unidos para realizar ações unilaterais, como bombardeios a infraestruturas do tráfico no Brasil ou operações de eliminação e captura análogas às que foram feitas na Venezuela.
Um dos objetivos de Flávio com a viagem aos Estados Unidos era tirar uma foto junto com Eduardo Bolsonaro ao lado de Trump. O desejo deve se frustrar, pois o imperador laranja da Casa Branca, fustigado pelos devotos desde que se meteu na guerra contra o Irã, sinalizou que não cogita dar as caras no encontro.
Com a fotografia ou sem ela, ao levar sua candidatura para passear em Dallas Flávio acorrentou-se a uma dúvida incômoda: se for eleito, defenderá o interesse nacional ou subordinará a política externa brasileira às conveniências de Trump, ídolo do pai e do bolsonarismo radical?
Flávio pintou Lula como um "socialista" antiamericano, aliado de Nicolás Maduro. Tratou a sucessão brasileira como uma extensão da guerra particular que Trump trava com o líder chinês Xi Jinping: "O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos Estados Unidos para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras".
Ficaram boiando na atmosfera de Dallas outras interrogações incômodas: chegando ao Planalto, Flávio vai tomar o partido de Trump no embate geopolítico com a China, maior parceiro comercial do Brasil? Vai hipotecar o subsolo brasileiro aos Estados Unidos, dando de ombros para o proveito que o país pode extrair de um dos seus ativos mais estratégicos?
Impulsionado pelos votos herdados do pai, Flávio degusta o empate técnico com Lula de olho nos conselhos dos seus estrategistas de marketing. Faz da hipotética moderação um trampolim para chegar ao eleitor de centro. Segue o manual que ensina políticos em campanha a dizerem mentiras com extrema sinceridade.
Contados os votos, o eleitor que se deixa fazer de bobo costuma descobrir que, numa eleição, não existe a verdade, existe apenas a versão que colou. Ao grudar sua candidatura às conveniências de Trump, Flávio como que convida o eleitorado a ligar as antenas do ceticismo.
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Joao Batista Correia Lima Neto
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