menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Considerações sobre um incêndio

34 0
24.06.2026

Assisti recentemente a uns debates polémicos, sobre uma mesma questão, que parte dum cenário deste tipo: num incêndio, se pudesses apenas salvar um ser, escolherias o teu animal de estimação ou um vizinho com o qual não tens qualquer relação?

Os argumentos a favor e contra são diversos — fundamentalmente nos comentários às partilhas  em redes sociais — e muitas vezes são levados a extremos para provar um ponto de vista. Por vezes, o vizinho é um idoso ou uma criança (hipótese que pretende defender o humano), por vezes o animal é um peixe ou uma tartaruga (em vez do cão ou do gato, aparentemente mais dignos de amor e que, em conjunto com “idoso” e “criança”, radicalizam o raciocínio), outros desvalorizam a experiência mental (por que motivo havemos de colocar a questão nestes termos tão infantis?), ou afirmam um primado amoroso (opto pelo ser pelo qual tenho mais amor) ou substituem o vizinho por um humano terrível (reductio ad Hitlerum).

Discussões deste tipo não mostram um lado certo ou errado, apesar das tentativas empoladas, mas sim a dificuldade filosófica de estabelecer uma moral universal: a procura ética por fundamentos incontestáveis e objectivos revela-se infrutífera, expondo a moral como uma construção contingente. Não há decreto divino, mas uma arquitectura humana.  Uns não comem porco porque é sujo, outros não comem vaca porque é sagrada. A mesma proibição tem causas opostas. O mais perto que se consegue dum imperativo são, além de ditames que têm eficácia na coesão social, factores biológicos: é possível que tenhamos a tendência a defender a espécie acima da relação individual interespécie; depois racionalizamos a questão transformando-a em imperativo moral.

Muitas vezes, a vida é então hierarquizada, assumindo que os organismos mais complexos são mais valiosos do que os mais simples........

© Sapo