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Os fantasmas de Lippman nos assombram

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03.02.2026

Walter Lippmann, em “Público Fantasma” (1922), descreveu com uma lucidez desconfortável aquilo que, em 2026, já não parece hipótese literária, mas experiência cotidiana: a maioria das pessoas não acessa a realidade “em si”. Em vez disso, vive e decide dentro de pseudoambientes — mapas mentais simplificados, feitos de recortes, estereótipos, palavras de ordem e imagens repetidas. A democracia liberal, como a imaginam muitas tradições da sociologia política, pressupõe cidadãos razoavelmente informados, capazes de pesar evidências e deliberar sobre fatos. Lippmann já desconfiava dessa premissa. Para ele, o público reage menos ao mundo e mais às representações do mundo; e, nessa brecha, prospera quem controla a fabricação das imagens.

A história mostrou o tamanho desse risco. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, explorou a vulnerabilidade humana com precisão trágica. Seu método era simples e brutal: centralizar mensagens, reduzir o conflito a inimigos “claros”, repetir slogans emocionais, suprimir contradições e alimentar medo e ressentimento. Judeus e comunistas viraram monstros totalizantes, úteis para explicar qualquer crise, justificar obediência cega e legitimar a violência. Não se tratava de convencer por argumentos, mas de construir um pseudoambiente coletivo tão coeso que a brutalidade parecesse necessária — e até moral.

Décadas depois, Steve Bannon atualizou esse mecanismo para o ecossistema digital. Ex-conselheiro de Donald Trump e um dos estrategistas da extrema direita contemporânea, Bannon ajudou a dar forma e intensidade ao imaginário do MAGA (Make America Great Again). A famosa tática de “inundar a zona com merda” (“flood the zone with shit”) não é apenas cinismo: é uma estratégia de guerra informacional. A ideia é saturar o espaço público com versões, boatos, suspeitas e........

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