Santa Marta na linha entre ação e retórica
Uma conferência sem lobby fóssil, com exigência de propostas concretas e foco na ação. Em Santa Marta, na Colômbia, o discurso mudou — mas será suficiente para responder à urgência climática ou estamos perante mais uma promessa adiada?
As alterações climáticas são hoje uma realidade incontornável. Os discursos negacionistas tornaram-se cada vez mais marginais, dando lugar a uma nova forma de bloqueio: narrativas aparentemente alinhadas com o ambiente, mas que promovem falsas soluções. Em nome da “sustentabilidade”, defende-se frequentemente a continuidade do crescimento económico sem impacto ambiental — uma premissa que ignora os limites físicos do planeta.
A crescente disputa geoestratégica pelo controlo de rotas e pela exploração de combustíveis fósseis acrescenta uma nova camada de complexidade. Após uma COP30 marcada pela ausência de um roteiro claro para o abandono dos combustíveis fósseis, a resposta surgiu fora do quadro habitual.
A frase que mais se repete, quase como um aviso, é simples: que isto não seja mais uma COP
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O governo da Colômbia, em conjunto com um grupo de países, decidiu avançar. Se o espaço multilateral tradicional não produz resultados, cria-se outro. Foi assim que nasceu a Primeira Conferência Internacional para o Abandono dos Combustíveis Fósseis.
A exclusão de representantes do lobby fóssil trouxe a promessa de que algo diferente poderia estar para acontecer. O segundo passo que marca a diferença, mais relevante, foi a exigência de propostas concretas: todos os participantes tiveram de apresentar por escrito respostas a três questões centrais: como reduzir a dependência económica dos combustíveis fósseis, como transformar a oferta e a procura de energia, e como reforçar a cooperação internacional e a diplomacia climática.
Na sessão de abertura, a ministra do Ambiente da Colômbia, Irene Torres, foi direta: desta conferência não sairá mais uma declaração, mas sim um relatório orientado para a ação. Terminou com a versão colombiana do nosso provérbio: “as palavras leva-as o vento”.
Paralelamente à conferência oficial, realizou-se a Conferência por Territórios Livres de Fósseis, organizada por movimentos sociais ligados à Cimeira dos Povos da COP30 e ao Fórum Social Pan-Amazónico. Durante dois dias, foram os territórios a falar: comunidades diretamente afetadas pela exploração, pela poluição, pela violência e pela destruição dos seus modos de vida.
O documento final desta conferência dos povos é mais duro e menos ambíguo. Denuncia uma guerra contínua — visível e invisível — contra a vida, expressa na contaminação de rios e solos, na violência contra comunidades e, de forma particular, contra as mulheres. Critica também a chamada transição energética dominante, argumentando que esta não reduz a pressão sobre os ecossistemas, antes a desloca, através da intensificação da mineração de minerais críticos e da expansão de novas formas de extrativismo.
As propostas são claras: territórios livres de exploração fóssil e de extrativismo, reforço do tecido comunitário, visibilização de abusos, ação direta e construção de alianças entre povos. A mensagem central é simples: não há territórios livres sem paz nem reparação.
Curiosamente, a ideia de territórios livres de extrativismo também surge no discurso da conferência oficial, incluindo nas intervenções governamentais. Mas aqui emerge uma contradição crítica.
A criação de territórios livres de exploração pode ser politicamente mobilizadora, mas não resolve, por si só, o problema central: a queima global de combustíveis fósseis. Existe o risco de criar uma sensação de vitória local enquanto o sistema energético global continua praticamente intacto.
Até agora, Santa Marta foi, na prática, três conferências em paralelo: uma institucional com grupos sectoriais a construir proposta e uma segunda parte de alto nível que receberá os inputs vindos do trabalho dos grupos setoriais; uma da sociedade civil e movimento organizada vivos da Cimeira dos Povos da COP30 e o Fórum Social Pan-amazónico; e ainda uma terceira, mais difusa, composta por redes, ONG e grupos sectoriais a trabalhar organizada pela Climate Action Network (CAN). Esta fragmentação levanta uma questão estratégica: como transformar esta diversidade em ação coerente?
O momento de convergência está agora a acontecer, com a Assembleia dos Povos e a grande marcha nas ruas de Santa Marta, acompanhada por mobilizações noutras partes do mundo.
Ainda assim, o sentimento dominante é de cautela. A ambição inicial, apresentada no lançamento da conferência em Belém do Pará, no Brasil, contrasta com a perceção atual de que os resultados podem ficar aquém do necessário.
A frase que mais se repete, quase como um aviso, é simples: que isto não seja mais uma COP.
O problema já não é a falta de diagnóstico. É a capacidade de executar, à escala e à velocidade que a ciência climática exige — sem repetir as desigualdades e injustiças do modelo fóssil.
E é precisamente aí que Santa Marta será julgada.
A autora segundo o Acordo Ortográfico de 1990
