Uma chance à diplomacia
Matar um ayatollah de 86 anos para o entronizar como mártir eterno é o género de golpe de génio que só ocorre a quem confunde um mapa de alvos com um plano político. A operação de 28 de fevereiro foi vendida ao mundo com a serena confiança dos que nunca tiveram de enterrar ninguém, prometendo resolver em duas semanas aquilo que a diplomacia não resolvera numa década, e para isso bastaria arrasar o programa nuclear iraniano, decapitar o regime e mandar as tropas de regresso a casa a tempo do verão.
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Ali Khamenei morreu de facto naquela madrugada, o que muitos confundiram à pressa com uma vitória, até repararem que o cadeirão dele fora ocupado pelo filho, Mojtaba, numa sucessão dinástica que teria feito corar de inveja a própria monarquia cuja abolição a revolução de 1979 tanto gostava de celebrar.
O problema nunca esteve na dose de força, por muito que os autores da façanha se agarrem hoje a essa desculpa comovente, mas numa confusão bem mais antiga e infinitamente mais cara. Existe aquilo que um inimigo possui, que se conta, se inspeciona e se troca por contrapartidas numa mesa, e existe aquilo que um inimigo é, que nenhuma tonelagem de explosivos jamais conseguiu abolir.
Enquanto o alvo foram os quilos de urânio e o alcance dos mísseis, havia um problema técnico com solução conhecida e entediante. A partir do instante em que se exigiu a rendição incondicional e se convidou os iranianos, quase por altifalante, a derrubarem o seu próprio governo, passou a travar-se uma guerra contra uma identidade nacional, e as identidades nacionais têm a irritante propriedade de engordar exatamente com aquilo que as pretende matar.
Com o estreito de Ormuz encerrado, o Líbano em chamas e a promessa de triunfo transformada em fatura, o regime que devia ter tombado continua de pé e mais coeso do que nunca em torno da memória do seu defunto.
Vale a pena........
