Quando a vigilância veste a moda
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Uma armação oval ocupa o centro da cena. Sobre o rosto de Kylie Jenner, ela parece pertencer inteiramente ao vocabulário da moda. A câmera de 12 megapixels quase se dissolve no desenho; seis microfones ficam recolhidos na estrutura; a inteligência artificial responde com a voz da celebridade. Vendido a partir de 399 dólares, o Meta Starfire Kylie Edition grava vídeos em 3K e permite fotografar, telefonar, traduzir conversas e executar comandos sem o uso das mãos. O que me interessa nesse lançamento é a alteração silenciosa que ele produz em nossa percepção. Uma tecnologia de captação deixa de chegar com a aparência de máquina e passa a se apresentar como extensão do estilo.
Quando uma câmera se abriga em um objeto cotidiano, a relação psíquica com o ato de filmar também se modifica. Um celular erguido na direção de alguém ainda anuncia uma intenção. Os óculos, por outro lado, podem permanecer no rosto durante uma conversa, um passeio ou um encontro. A forma conhecida reduz o estranhamento, o desenho convoca o desejo e a celebridade oferece uma familiaridade construída ao longo de anos. O risco não desaparece. Perde, contudo, parte de sua nitidez, pois se torna mais difícil separar o acessório de sua capacidade de observar, registrar e transmitir.
Na minha leitura, a moda participa dessa operação porque organiza modos de aparecer e de pertencer. Um objeto associado a um determinado grupo oferece mais do que uma função. Ele promete reconhecimento, atualidade e acesso a uma linguagem compartilhada. Questioná-lo talvez soe como recusa ao futuro ou à comunidade que se forma em torno dele. A vigilância, então, não precisa mais se impor apenas pelo medo. Ela encontra acesso à vida comum pela via da adesão, do gosto e da........
