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As comunidades de energia são redes de resiliência em caso de eventos extremos

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Na madrugada de 28 de Janeiro de 2026, a depressão Kristin entrou em Portugal por Leiria com rajadas que ultrapassaram os 200 quilómetros por hora. Em poucas horas, seis mil quilómetros de rede eléctrica ficaram danificados, mais de cinco mil postes tombaram, e um milhão de pessoas perderam o acesso à electricidade. Onze dias depois, o município de Leiria escrevia uma carta aberta à E-Redes: ainda havia mais de vinte mil contadores sem energia, muitos deles em zonas rurais, com famílias, agricultores e lares de idosos completamente isolados.

No rasto de destruição surgiram, como sempre, as perguntas: e se estivéssemos melhor preparados? Podemos ir além dos postes ou subestações mais robustas e pensar em alternativas sistémicas, que influenciem a lógica vigente de produzir, partilhar e gerir energia? É aqui que as comunidades de energia podem mostrar um caminho diferente.

Uma comunidade de energia é mais que o conjunto de painéis solares partilhados entre vizinhos. É um modelo de governança e de responsabilidade colectiva sobre um bem essencial. Os seus membros produzem, consomem e gerem energia em conjunto. É um acto de cidadania energética, e é precisamente por isso que os seus benefícios vão muito além da factura (mais baixa) que cada um recebe em casa.

O primeiro desses benefícios, e talvez o mais duradouro, é o tecido social que se forma à volta da energia partilhada. Vizinhos que antes se cruzavam sem se conhecer passam a tomar decisões em conjunto, a partilhar recursos e a reconhecer-se como interdependentes. Em momentos de crise, como os de Janeiro e Fevereiro, esta coesão prévia faz toda a diferença. São as pessoas que já se conhecem, que já confiam umas nas outras, que mais rapidamente se organizam, se entreajudam e encontram soluções criativas perante a adversidade.

Do ponto de vista técnico, o autoconsumo individual é a resposta mais imediata à fragilidade da rede. Quando uma falha ocorre, quem tem produção local, combinada preferencialmente com armazenamento, consegue mitigar o impacto. A maioria dos sistemas actuais não opera em modo ilha, ou seja, não funciona completamente desligada da rede eléctrica. Mas em casos individuais, este objectivo é facilmente concretizável. Da mesma forma, em comunidade, é possível criar micro-redes, com capacidade de funcionamento independente, preferencialmente temporário. Em comunidades com baterias e controlo inteligente, é já possível manter serviços essenciais durante períodos críticos. São casos específicos, com requisitos técnicos e custos associados, mas existem, e multiplicam-se.

A visão mais ambiciosa é a de uma rede eléctrica com múltiplos nós activos, capazes de funcionar de forma autónoma em caso de falha, e de se reintegrarem coordenadamente quando a rede principal recupera. Cada comunidade de energia que se organiza, que instala produção distribuída e que aprende a gerir os seus recursos, é um ensaio deste futuro. Em tempos de normalidade, estes nós funcionam coordenados centralmente. Em tempos de crise, têm a capacidade de tomar carga localmente. É uma arquitectura de resiliência que começa no território e se constrói de baixo para cima.

Talvez um dia a tempestade Kristin seja reconhecida como um ponto de viragem. Talvez os portugueses possam usar esta tempestade para compreender que a transição energética transcende a descarbonização, sendo realmente uma questão de resiliência: adaptação e capacidade de superar adversidades. Que uma rede mais distribuída, com mais produção local e mais comunidades organizadas, é também uma rede mais robusta. Acredito que essa transição usa a tecnologia, mas faz-se com pessoas, com confiança e com a vontade de construir algo em conjunto. Porque a resiliência, começa sempre na comunidade.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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