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Livre até deixar de o ser

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06.10.2025

O Livre é um daqueles partidos que parecem feitos para agradar na primeira impressão. Rui Tavares fala pausadamente, cita filósofos, salpica o discurso com referências europeias e transmite uma imagem de serenidade intelectual. Ao contrário da retórica inflamável do Bloco de Esquerda, o Livre apresenta-se como o parente moderado, cosmopolita, europeu e respeitável da esquerda radical. É precisamente isso que o torna mais perigoso. O verniz da moderação serve para disfarçar um projeto político que, no essencial, não é diferente do intervencionismo paternalista que conhecemos demasiado bem.

A história do Livre não é curta nem inocente. Basta olhar para a origem do partido para perceber que a sua matriz está longe da moderação que apregoa: o Livre nasce não de uma rutura ideológica, mas de um desacerto pessoal entre Rui Tavares e Francisco Louçã. Em 2011, o então eurodeputado do Bloco abandonou o partido em clima de fricções internas e, cumprido o tempo de quarentena política, regressou com um projeto que reciclava o mesmo radicalismo sob uma nova estética. A “esquerda europeísta e ecologista” que Rui Tavares ergueu mostra cada vez mais que não passa de um BE domesticado no tom, mas intacto na substância.

Lembremo-nos também de Joacine Katar Moreira, eleita pelo partido em 2019 e depois afastada, num dos episódios mais caricatos da política recente. Um partido que se dizia paladino do centrismo e da inclusão acabou em divisões internas públicas e num radicalismo identitário que o país inteiro pôde testemunhar.

Mas mesmo que quiséssemos ignorar estes episódios, bastaria olhar para as alianças políticas do Livre. O facto de estar tão próximo e tantas vezes coligado com partidos Putinistas que apelidam a democracia liberal de “burguesa” e que veem a Coreia do Norte como grande exemplo democrático, bastaria para perceber onde os próprios se situam ideologicamente. Quem proclama diferença face à esquerda radical, sobretudo em matérias europeias e internacionais, é afinal o mesmo que, no momento decisivo, lhes dá a mão sem hesitar, confirmando que a sua alegada singularidade não passa de uma capa conveniente.

E é quando passamos da superfície da retórica para a arquitetura de fundo que o Livre se revela por inteiro. A sua visão de sociedade não é a de um espaço aberto onde indivíduos livres perseguem fins........

© Observador