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Portugal, uma máquina de produzir médicos. Mas para quê?

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26.10.2026

Portugal abriu 2338 vagas para o Internato Médico (Formação Especializada). Num país com uma das mais elevadas densidades de médicos por habitante da OCDE (5.8 médicos/1000 habitantes versus 3.9 médicos/1000 habitantes da restante OCDE), continuamos a aumentar o número de profissionais em formação, ano após ano, sem que seja evidente a existência de um planeamento suficientemente rigoroso das necessidades futuras. Repare-se que este planeamento está tão aquém que se aposta na formação de médicos ao invés de se apostar na formação e contratação de enfermeiros, onde Portugal apresenta uma média de 7.6 enfermeiros/1000 habitantes comparativamente aos 9.2 enfermeiros/1000 habitantes da OCDE.

É certo que os números exigem alguma prudência. Em Portugal, as estatísticas internacionais incluem médicos habilitados a exercer, e não apenas aqueles que estão efetivamente em atividade clínica. Mas esta ressalva, que certamente em pouco baixará a média de médicos por 1000 habitantes em Portugal, não elimina uma questão essencial: sabemos, verdadeiramente, quantos médicos precisamos de formar?

Somos, aparentemente, muito bons a produzir médicos, somos uma máquina de produção. Produzimos, produzimos e continuamos a produzir. Mas para quê? Para que especialidades, para que regiões, com que perspetiva de futuro? Este desperdício de planeamento tem, na verdade, três faces: a forma como aproveitamos os médicos que já temos, a qualidade da formação que conseguimos garantir aos que se estão a formar, e a capacidade que a profissão mantém de continuar a atrair os melhores. Vale a pena olhar para cada uma delas.

A primeira frente: estamos a aproveitar os médicos que já temos?

Formar um médico não é um processo rápido nem barato. São seis anos de formação universitária, um ano de formação geral (no fim do qual ficamos habilitados à prática não especializada autónoma), seguidos de vários anos de formação especializada (4 a 6 anos, de acordo com a especialidade), num percurso que representa um investimento considerável do próprio e da sociedade. Entre a entrada na faculdade e a conclusão da especialidade, considerando um percurso sem percalços, decorrem entre 11 a 13 anos, isto é, somos verdadeiros trintões quando nos tornamos especialistas.

Um médico passa anos a adquirir conhecimentos científicos, capacidade de raciocínio clínico, competências técnicas e experiência na tomada de decisões complexas. No entanto, uma parte considerável do seu dia de trabalho é consumida por tarefas administrativas, burocráticas e organizacionais que não exigem, necessariamente, formação médica. Quantas horas são gastas a preencher documentos, introduzir informação em sistemas informáticos, procurar dados dispersos ou organizar agendas — tarefas que poderiam ser asseguradas por outros profissionais, com a mesma qualidade e a um custo inferior? Quantas vezes um médico é simultaneamente clínico, secretário, gestor administrativo e assistente operacional?

E quanto custa, verdadeiramente, esta opção? O custo não se resume ao salário pago por uma determinada tarefa. Existe também o custo de oportunidade: o valor daquilo que deixa de ser feito enquanto um profissional altamente diferenciado executa uma função que poderia ser assegurada por outra pessoa ou por um sistema automatizado. Quando um médico passa uma hora a executar uma tarefa administrativa, essa hora deixa de estar disponível para observar um doente, discutir um diagnóstico, realizar um procedimento ou acompanhar um caso complexo. Num sistema com listas de espera e dificuldades de acesso aos cuidados de saúde, esta não é uma questão menor.

E há uma outra pergunta que raramente fazemos: será que precisamos........

© Observador