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O Processo Kafkiano de Bruxelas

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friday

Em O Processo, Kafka não imaginou apenas a angústia de um homem injustamente acusado. Imaginou algo mais duradouro: a transformação da culpa num procedimento. Josef K. não é arrastado por soldados nem esmagado por uma tirania de rosto reconhecível. O que o cerca é mais discreto e, por isso, mais moderno: funcionários, portas, papéis, fórmulas, uma autoridade que se anuncia sem se explicar.

A Europa leu Kafka durante décadas com a distância confortável de quem acredita que a literatura descreve sempre os outros. Aquilo pertencia ao mundo das ditaduras, dos impérios orientais, dos regimes sem Estado de direito. Nós, não. Nós tínhamos garantias, tribunais, proporcionalidade, liberdade de imprensa, direitos fundamentais. Tínhamos, sobretudo, “valores europeus” – expressão que, de tão repetida, passou a funcionar menos como princípio exigente e mais como certificado de inocência.

O caso de Hüseyin Doğru perturba essa tranquilidade.

Doğru é um jornalista alemão sediado em Berlim, de origem turco-curda, nascido e criado na Alemanha, ligado à AFA Medya A.Ş., empresa registada em Istambul e associada ao projeto mediático RED. O seu trabalho tem incidido sobre matérias politicamente inflamáveis: Palestina, Israel, colonialismo, protestos reprimidos na Alemanha e a aplicação seletiva da linguagem dos direitos humanos pelas democracias ocidentais.

Nada disto obriga a simpatizar com Doğru. Pode discordar-se do seu enquadramento político, da sua linha editorial, das suas companhias, dos seus critérios ou da sua retórica. Mas é precisamente aí que começa o problema liberal. A liberdade de imprensa não foi inventada para proteger jornalistas inofensivos e convenientes. As garantias processuais não existem para premiar cidadãos agradáveis. O Estado de direito só tem verdadeiro valor quando é aplicado a quem incomoda.

A 20 de maio de 2025, a União Europeia colocou Hüseyin Doğru e a AFA........

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