Pentágono vs. Anthropic: o buraco negro da confiança na IA
Parte I — Diagnóstico: quando todos têm razão e ninguém tem solução
No domingo, 23 de fevereiro, a Anthropic, a empresa norte-americana que criou o modelo de inteligência artificial Claude, revelou que três laboratórios chineses de IA utilizaram cerca de 24.000 contas falsas para fazer ao Claude mais de 16 milhões de perguntas. O objetivo era simples e brutal: usar as respostas para ensinar os seus próprios modelos a fazer o que o Claude faz; uma espécie de cópia industrial de inteligência, feita à escala e à velocidade da máquina.
Na terça-feira, dois dias depois, o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, convocou o CEO da Anthropic, Dario Amodei, ao Pentágono para lhe entregar um ultimato: ou a empresa retira todas as restrições de uso militar do Claude até sexta-feira, ou perde um contrato de 200 milhões de dólares e enfrenta sanções que podem destruir o seu negócio.
Por outras palavras, no mesmo fim de semana, a mesma empresa é alvo de roubo tecnológico por adversários e de ameaças do próprio governo.
É tentador transformar isto numa fábula moral simples: “a empresa ética contra o Pentágono belicista” ou “a empresa ingénua contra um mundo perigoso”. Nenhuma das versões é verdadeira, e o que está realmente em causa é bastante mais grave.
O que os laboratórios chineses fizeram à Anthropic precisa de ser entendido com clareza. A DeepSeek, a Moonshot AI e a MiniMax são empresas chinesas de IA que, legalmente, não podem sequer aceder ao Claude (o serviço não está disponível na China por razões regulatórias e de segurança). Mas essa restrição foi contornada através de intermediários que revendem acesso a modelos ocidentais. Uma vez dentro, tais empresas automatizaram conversas com o Claude, não para obter informação trivial, mas para extrair o que de mais valioso o modelo sabe fazer: raciocínio complexo, programação avançada, uso autónomo de ferramentas. É como se alguém entrasse disfarçado numa universidade de elite, assistisse a milhões de aulas num ápice e gravasse tudo para montar uma universidade rival, sem pagar, sem autorização e sem respeitar quaisquer regras.
A DeepSeek, num detalhe que merece atenção, pediu especificamente ao Claude ajuda para formular respostas que contornassem a censura política relativamente a dissidentes e ao autoritarismo. Ou seja: usou inteligência artificial norte-americana para aprender a controlar melhor a dissidência doméstica chinesa. A ironia seria quase literária, se as consequências não fossem tão sérias.
Este não é um caso isolado. Em setembro de 2025, a própria Anthropic detetou e tornou pública uma campanha de ciberespionagem conduzida por um grupo patrocinado pelo Estado chinês que usou o Claude como motor autónomo de ataque contra cerca de 30 organizações globais. A inteligência artificial conduziu entre 80 e 90 por cento da operação sozinha: identificou alvos, vulnerabilidades e credenciais, e classificou dados por valor estratégico. Tudo isto com supervisão humana mínima. Separadamente, operacionais norte-coreanos usaram o Claude para criar identidades falsas e obter empregos em empresas americanas da lista Fortune 500. E tanto a Google quanto a OpenAI relataram campanhas semelhantes envolvendo hackers russos e iranianos. O padrão é claro: adversários autocratas do mundo livre já estão a usar a IA ocidental como arma para espiar, roubar, infiltrar e controlar. E fazem-no sem qualquer hesitação ética.
É neste contexto que a posição do Pentágono deve ser avaliada. A exigência de Pete Hegseth de uso do modelo de IA Claude “para todos os fins legais”, sem restrições impostas pela empresa, não nasce de um capricho autoritário. Nasce de uma realidade operacional: quando o adversário usa a mesma tecnologia sem limites e à velocidade da máquina, a ideia de que o exército democrático deve funcionar com salvaguardas que o inimigo não respeita é, no mínimo, desconfortável. Por sua vez, a Anthropic mantém duas linhas vermelhas, duas restrições ao uso dos seus modelos de IA: armas letais totalmente autónomas (sem decisão humana no comando) e vigilância em massa de cidadãos americanos. São posições defensáveis. Mas o Pentágono insiste que a questão “não tem nada a ver” com essas duas áreas. Ora, se não tem, porque é que não descreve simplesmente o uso pretendido e resolve a questão com transparência? O silêncio é eloquente. E levanta a pergunta que ninguém quer fazer: o que é que o Departamento de Defesa dos EUA pretende do Claude que a Anthropic está a impedir?
As ameaças do Pentágono, por sua vez, eram internamente contraditórias. Hegseth ameaçou classificar a Anthropic como “risco na cadeia de abastecimento” (uma designação normalmente reservada a empresas de países adversários) e, ao mesmo tempo, invocar o “Defense Production Act” para forçar a Anthropic a fornecer o Claude ao exército. Como notou Katie Sweeten,........
