Os Descartes Perdidos
René Descartes tinha um hábito pouco comum: passava longas manhãs no quarto, a deixar os seus pensamentos vaguear. Foi precisamente durante estes períodos que desenvolveu algumas das ideias mais influentes para a filosofia ocidental. É tentador pensar como as coisas seriam diferentes se ele tivesse nascido quatro séculos mais tarde.
Imagine-se a cena: Descartes está deitado, a duvidar da existência do mundo exterior, e chega até “Dubito ergo cogito” (duvido, logo penso). Nesse momento, o seu telemóvel liga-se com uma notificação (Descartes não tinha um telemóvel, mas concedam-me este anacronismo). Ele pega no telemóvel, distrai-se, e não chega a “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo).
A ironia é que aquilo que hoje chamaríamos improdutividade era, provavelmente, a parte mais produtiva do seu dia. Descartes tinha algo cada vez mais raro: tempo em que a sua mente não estava a ser conduzida por estímulos exteriores.
Muito se tem escrito sobre o declínio daquilo a que o sociólogo Ray Oldenburg chamou o “terceiro espaço”: cafés, bares, bibliotecas, os lugares entre a casa e o trabalho onde a vida social costumava acontecer. O seu desaparecimento é preocupante por estar diretamente associado com o........
