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Os Descartes Perdidos

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12.08.2026

René Descartes tinha um hábito pouco comum: passava longas manhãs no quarto, a deixar os seus  pensamentos vaguear. Foi precisamente durante estes períodos que desenvolveu algumas das ideias mais influentes para a filosofia ocidental. É tentador pensar como as coisas seriam diferentes se ele  tivesse nascido quatro séculos mais tarde.

Imagine-se a cena: Descartes está deitado, a duvidar da existência do mundo exterior, e chega até  “Dubito ergo cogito” (duvido, logo penso). Nesse momento, o seu telemóvel liga-se com uma  notificação (Descartes não tinha um telemóvel, mas concedam-me este anacronismo). Ele pega no  telemóvel, distrai-se, e não chega a “Cogito ergo sum” (Penso, logo existo).

A ironia é que aquilo que hoje chamaríamos improdutividade era, provavelmente, a parte mais  produtiva do seu dia. Descartes tinha algo cada vez mais raro: tempo em que a sua mente não estava  a ser conduzida por estímulos exteriores.

Muito se tem escrito sobre o declínio daquilo a que o sociólogo Ray Oldenburg chamou o “terceiro  espaço”: cafés, bares, bibliotecas, os lugares entre a casa e o trabalho onde a vida social costumava  acontecer. O seu desaparecimento é preocupante por estar diretamente associado com o........

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