O radar inteligente do Governo
A polémica à volta de uma ferramenta que o Governo contratou para monitorizar o que é publicado na imprensa revela alguma ingenuidade política, quer do Executivo, quer da Oposição.
A plataforma NewsWhip, que custou 40 mil euros, é similar a muitas outras, usadas, por exemplo, em redações e agências de comunicação. Monitoriza, em tempo real, milhares de sites de notícias e redes sociais para identificar que conteúdos estão a ganhar atenção e quais os que têm maior potencial para se tornarem virais. Mas tem uma particularidade. A influência de cada autor (jornalistas, neste caso) pode ser medida, comparada e ordenada. São estas características que preocupam a Oposição. O PS acusou mesmo o Governo de conviver mal com a liberdade de imprensa, o BE vai na mesma linha, falando de "uma prática grave".
O ministro Leitão Amaro garante que o Executivo não está a fazer rankings de jornalistas. Muito provavelmente, está a dizer a verdade. Mas o problema é que já não é preciso fazer rankings para os ter. Qualquer pergunta num motor de IA vai dizer-nos em segundos quem são as pessoas mais influentes para abordar determinados temas. Basta usar o "prompt" (comando) certo.
De facto, o NewsWhip não tem nenhum botão para "rankings de jornalistas", mas, ao medir a influência de conteúdos e autores, pode aproximar-se disso. E é aqui que a ingenuidade se revela. O Governo garante que apenas usa a ferramenta para fazer um "clipping" moderno. Finge que a intenção resolve o problema e a Oposição finge que o problema nasceu agora.
A questão não é, portanto, saber o que a ferramenta faz. É garantir que os dados obtidos não servem para condicionar os jornalistas.
