Se Orbán Ganhar, a Europa Perde
Em política, há momentos em que uma eleição deixa de pertencer ao país que a organiza. Continua a ser nacional no boletim de voto, continua a ter candidatos, cartazes, sondagens e arruadas locais, mas já não se decide apenas o Governo de um Estado. Decide-se outra coisa, mais funda e mais vasta: a direção de um continente, a credibilidade de uma ordem política, a possibilidade de um sistema se defender. As próximas eleições na Hungria são um desses momentos.
Durante demasiado tempo, a Europa olhou para Viktor Orbán como se fosse apenas uma excentricidade da periferia. Um problema incómodo, mas gerível. Um líder iliberal, sim, mas útil para a fotografia da pluralidade europeia. Um embaraço recorrente, mas não ainda uma ameaça existencial. Foi o erro clássico das elites continentais: confundir fadiga com lucidez, adiar o conflito em nome da gestão e chamar pragmatismo àquilo que, na verdade, era apenas falta de coragem política.
O problema de Orbán nunca foi apenas húngaro. E hoje já nem sequer é sobretudo húngaro. Tornou-se o sintoma mais acabado de uma doença europeia: a incapacidade da União para distinguir entre integração institucional e lealdade política ao projeto comum. A Europa habituou-se a acreditar que bastava colocar um país dentro das suas estruturas, distribuir fundos, exigir relatórios, convocar cimeiras e repetir a liturgia do Estado de direito para que a trajetória histórica ficasse garantida. Como se a pertença administrativa produzisse, por si só, convicção civilizacional. Como se a adesão ao mercado e ao orçamento fosse suficiente para assegurar adesão à ideia de Europa.
Magyar, como Orbán, não tem um programa pró-europeu, nem pró-Ucrânia
Janos Kummer/Getty Images
Internacional
Hungria, improvável palco da geopolítica mundial
Leia também
Não é. Nunca foi.
A questão húngara tornou-se central porque expõe a fragilidade do edifício europeu no momento em que a História voltou a entrar pela porta da frente. Enquanto a União viveu no conforto estratégico do pós-Guerra Fria, foi possível tolerar ambiguidades. Foi possível fingir que certas derivas internas eram meras idiossincrasias nacionais. Foi possível suportar Orbán como quem suporta um parente difícil em jantares de família, esperando sempre que a sobremesa chegasse antes de nova cena desagradável. A guerra na Ucrânia mudou tudo. Desde fevereiro de 2022, a Europa já não vive num tempo administrativo. Vive num tempo estratégico. E, num tempo estratégico, a ambiguidade deixa de ser subtileza e passa a ser fraqueza.
É isso que torna estas eleições decisivas. Não porque Orbán vá reinventar-se, nem porque a Hungria, de um dia para o outro, vá sair formalmente da órbita europeia. Não se trata disso. Trata-se de perceber se a União consegue sobreviver politicamente ao facto de ter dentro de si um ator que bloqueia, atrasa, desgasta e, em muitos momentos, funciona como correia de transmissão de interesses hostis ao próprio bloco a que pertence.
Péter Szijjártó, ministro dos Negócios Estrangeiros e Comércio da Hungria
Thierry Monasse
Internacional
“Estou a fazer o meu melhor”, dizia o MNE húngaro aos russos, “... mas tenho de dizer que isto é do interesse da Hungria”
Leia também
Orbán não é apenas um nacionalista conservador, como ainda gostam de o descrever alguns ingénuos ou cúmplices. É um operador de veto numa estrutura que depende da unidade para agir. E esse é um poder imenso.
Ao longo dos últimos anos, a Europa foi descobrindo, sempre tarde e sempre com relutância, que o problema não estava apenas na degradação interna das instituições húngaras. Estava no uso geopolítico dessa degradação. O esvaziamento da independência judicial, a captura gradual da comunicação social, a colonização partidária do Estado, a asfixia da oposição e a transformação do espaço público num instrumento de poder não são apenas más notícias para os democratas húngaros. São a base de um regime que usa a soberania nacional como escudo e a pertença europeia como recurso. Orbán quer o dinheiro de Bruxelas sem a disciplina de Bruxelas, quer os benefícios da integração sem os seus deveres, quer o estatuto de membro sem a solidariedade de membro. É, nesse sentido, o perfeito parasita institucional: vive da estrutura que corrói.
A sofisticação do orbánismo está precisamente aí. Não é uma ditadura clássica. Não precisa de ser. Não fecha formalmente o regime, porque percebeu antes de muitos outros que, no interior da União Europeia, é mais eficaz governar através da deformação lenta da democracia do que através da sua supressão aberta. O voto mantém-se, as instituições mantêm o nome, os jornais continuam a existir, os tribunais continuam a abrir portas. Mas a essência é outra. A competição deixa de ser justa, a informação deixa de ser livre, o Estado deixa de ser neutro. O regime conserva a casca e muda o conteúdo. É por isso que é tão difícil de combater. Porque obriga os adversários a provar, todos os dias, que a aparência não coincide com a substância.
NurPhoto/ Getty Images
Internacional
Era um “não assunto” na Hungria, agora é alvo político em vários países: que direitos têm as pessoas transgénero na Europa?
Leia também
Durante muito tempo, a União respondeu a isto com linguagem jurídica, relatórios técnicos, advertências formais e mecanismos tardios de condicionalidade. Tudo isso teve alguma utilidade, mas falhou no essencial: tratou um problema político como se fosse um simples desvio normativo. Não é. Orbán não é um acidente regulamentar. É um projeto político. E, como todos os projetos políticos consequentes, testa os limites do sistema onde atua. Até hoje, tem tido demasiado sucesso.
O seu verdadeiro triunfo talvez nem seja Budapeste. É Bruxelas. É ter conseguido demonstrar que a União Europeia, tal como está desenhada, pode ser tomada em refém por dentro. Pode haver 26 capitais dispostas a avançar numa direção e uma única empenhada em travar. Pode haver urgência geopolítica, necessidade moral, pressão estratégica e, ainda assim, o mecanismo emperra. Cada bloqueio de Orbán à ajuda à Ucrânia, cada hesitação cultivada, cada negociação transformada em chantagem, cada gesto de proximidade tática com Moscovo foi mais do que um incidente diplomático. Foi uma lição cruel sobre a arquitetura real do poder europeu.
A tragédia é que isto acontece no pior momento possível. A Europa precisa de rapidez, clareza e capacidade de decisão. Precisa de provar que consegue agir num mundo em que as potências revisionistas já não se escondem atrás de eufemismos. A Rússia usa a guerra. A China usa escala, paciência e dependência económica. Os Estados Unidos, mesmo quando continuam essenciais, já não garantem previsibilidade estratégica. Neste contexto, a União só pode compensar as suas fragilidades clássicas com coesão política. Se perde essa coesão, perde quase tudo.
Internacional
Reportagem na Eslováquia: como o assassínio de um jornalista dividiu o país e tem estrangulado a democracia
Leia também
É por isso que uma vitória de Orbán teria um significado que ultrapassa largamente a fronteira húngara. Seria lida, dentro e fora da Europa, como a confirmação de que este modelo é compatível com a pertença europeia, rentável no plano interno e suportável no plano externo. Seria a prova de que é possível degradar os fundamentos liberais do projeto europeu sem pagar um preço verdadeiramente proibitivo. Seria também uma mensagem para todos os que, noutros países, observam a experiência húngara com curiosidade, inveja ou espírito de imitação: afinal, pode-se ficar. Pode-se receber fundos. Pode-se bloquear decisões. Pode-se corroer por dentro e continuar à mesa. Nenhuma união política sobrevive indefinidamente a essa contradição.
Há, por trás disto, uma pergunta que a Europa tem evitado fazer a si própria por medo da resposta: será possível manter um projeto assente em regras comuns quando alguns dos seus membros deixaram de acreditar nas premissas políticas e morais que justificam essas regras? Durante anos, esta pergunta foi considerada excessiva, alarmista, inconveniente. Hoje, é apenas realista.
A União Europeia habituou-se a pensar-se como destino. Orbán obriga-a a pensar-se como escolha. E uma escolha exige fronteiras, critérios, vontade e conflito. Exige a capacidade de dizer que nem tudo é compatível com tudo, que nem toda a divergência é saudável, que nem todo o pluralismo inclui o direito de desmantelar por dentro as bases que tornam esse pluralismo possível. Uma comunidade política que não sabe defender os seus próprios pressupostos deixa de ser comunidade. Passa a ser apenas procedimento.
Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro
Pier Marco Tacca/Getty Images
União Europeia
Líderes da UE “condenam” duramente comportamento de Orbán, mas húngaro vence no braço-de-ferro
Leia também
Se Orbán ganhar, a Europa não colapsa no dia seguinte. Os mercados abrirão, os comboios circularão, as cimeiras continuarão, os comunicados serão redigidos na prosa neutra de sempre. É assim que os declínios sérios se apresentam. Não com estrondo, mas com habituação. Não com ruína imediata, mas com erosão acumulada. O perigo de Orbán nunca foi anunciar uma saída dramática. O perigo de Orbán é banalizar a decomposição.
E é talvez isso que torna estas eleições tão importantes. Não porque resolvam sozinhas o problema europeu, mas porque obrigam a Europa a olhar para o espelho num momento de guerra, de pressão externa e de desordem internacional. E o espelho devolve uma imagem desconfortável: a de um continente que quer ser potência, mas continua incapaz de decidir o que fazer com quem mina, por dentro, a sua própria possibilidade de agir.
Se Orbán ganhar, a Hungria continuará a ser Hungria. Mas a Europa ficará menor. Menor na autoridade, menor na coerência, menor na capacidade de convencer o mundo de que representa mais do que um mercado com bandeira. E, num século em que a força voltou a disputar espaço às regras, isso é mais do que um problema institucional. É um risco histórico.
