40 anos da tragédia de Chornobyl: uma ameaça que continua atual
A 26 de abril de 1986, o mundo acordou numa nova realidade. A explosão na central nuclear de Chornobyl tornou-se a maior catástrofe tecnológica da história da humanidade. Mas Chornobyl não foi apenas uma trágica coincidência. Foi o resultado direto de um sistema soviético criminoso — um sistema que desprezava a segurança, a verdade e a vida humana.
Hoje, 40 anos depois, recordamos não só a dimensão da tragédia, mas também as lições que ela nos deixou.
A catástrofe foi resultado de uma experiência com o reator, realizada por ordem do “Centro”, com uma violação flagrante das regras básicas de segurança. No entanto, ainda mais devastadoras foram as ações após a explosão. As autoridades soviéticas ocultaram a verdade. O mundo só soube do acidente dois dias depois, quando especialistas suecos detetaram níveis elevados de radiação provenientes do território da URSS. Ao mesmo tempo, os próprios cidadãos — incluindo os ucranianos — não foram informados sobre o acidente nem sobre as suas consequências. Pelo contrário, as pessoas foram levadas a participar na manifestação de 1 de maio, no centro de Kyiv, quando os níveis de radiação no ar já eram perigosamente elevados.
A nuvem radioativa não conheceu fronteiras. Espalhou-se por toda a Europa, deixando a sua marca em dezenas de países. Milhões de pessoas foram expostas à radiação. O nível de radiação no reator destruído atingiu 20 000 roentgens. Para comparação, uma dose de 500 roentgens ao longo de cinco horas é letal. A radiação total libertada foi 30 vezes superior à da bomba lançada sobre Hiroshima. Centenas de milhares de pessoas foram forçadas a abandonar definitivamente as suas casas. Cerca de 2 218 localidades na Ucrânia, onde viviam aproximadamente 2,4 milhões de pessoas, foram gravemente afetadas. A “zona de exclusão” continua a existir até hoje, com uma área comparável à da Área Metropolitana de Lisboa. A zona num raio de 10 quilómetros em torno da central permanecerá perigosa para a vida humana durante cerca de 20 000 anos.
Chornobyl foi não apenas uma catástrofe ambiental, mas também uma sentença política para o sistema. Expôs a verdadeira natureza do regime soviético — um sistema em que o controlo e a propaganda valiam mais do que a vida humana.
Ao mesmo tempo, Chornobyl não é apenas uma história de crime e tragédia. É também uma história de heroísmo humano. Mais de 600 mil liquidatários, bombeiros, militares e médicos, à custa da sua própria saúde e vida, conseguiram conter a propagação da catástrofe. Hoje, honramos o seu heroísmo e memória.
Infelizmente, Chornobyl não pertence apenas ao passado. A 24 de fevereiro de 2022, com o início da agressão em larga escala da Rússia contra a Ucrânia, o mundo voltou a enfrentar uma ameaça nuclear. Um dos primeiros locais capturados pelas forças russas foi a zona de exclusão de Chornobyl. Apenas graças à dedicação do pessoal ucraniano, que permaneceu nos seus postos sob ocupação, arriscando a própria vida, foi possível evitar uma nova catástrofe nuclear. A 31 de março, as Forças Armadas da Ucrânia libertaram a zona de exclusão.
No entanto, o terrorismo nuclear da Rússia não terminou aí. Em fevereiro de 2025, foi lançado um ataque contra o Novo Confinamento Seguro de Chornobyl, que protege o reator destruído da unidade 4. Um drone de combate russo danificou as estruturas externa e interna do “Abrigo”. É importante recordar que a resposta à catástrofe de Chornobyl foi um dos exemplos mais bem-sucedidos de solidariedade internacional: 45 países, incluindo Portugal, e organizações internacionais contribuíram para o financiamento desta estrutura. Hoje, somos novamente obrigados a enfrentar este desafio — uma conferência internacional de doadores terá lugar em Kyiv a 26 de abril de 2026. Valorizamos a liderança da França no G7 e no BERD, bem como o contributo de outros países na mobilização de financiamento para restaurar esta infraestrutura crítica após o ataque bárbaro da Rússia.
Outra fonte de grande preocupação é a ocupação russa da central nuclear de Zaporizhzhia — a maior da Europa. Pela primeira vez na história, um Estado agressor tomou controlo de centrais nucleares e utiliza esse facto como instrumento de chantagem. Trata-se de uma violação flagrante de todos os princípios fundamentais de segurança nuclear definidos pela AIEA. Nenhum país tem o direito de usar a ameaça de uma catástrofe radiológica como instrumento de pressão. E nenhum país deve permanecer impune por tais ações.
Em março de 2025, a missão da AIEA reportou múltiplas explosões na central de Zaporizhzhia. Um reservatório de combustível diesel, essencial para alimentar geradores de emergência, foi danificado. Este incidente resultou diretamente da substituição, pela Rússia, de especialistas ucranianos qualificados por pessoal não qualificado.
A escalada sistemática do terrorismo nuclear por parte da Rússia, no contexto da sua guerra de agressão contra a Ucrânia, aproxima-se de um ponto crítico — com implicações globais.
A comunidade internacional deve agir com determinação. Esta não é apenas uma questão ucraniana. É uma questão de segurança nuclear global, cuja restauração só será possível com o pleno restabelecimento do controlo da Ucrânia sobre todas as suas instalações nucleares civis.
Quarenta anos após Chornobyl, compreendemos melhor o preço dos erros e o preço do silêncio. O mundo não pode esperar por um novo Chornobyl. Hoje, a Ucrânia luta não apenas pela sua liberdade e independência. Luta pela segurança comum num sentido mais amplo — incluindo a segurança nuclear. E esta luta continua.
O Expresso respeitou as grafias Chornobyl e Kyiv usadas pela autora em vez das forma Chernobyl Kiev que o jornal adotou
