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Não precisamos de mais self-care. Precisamos uns dos outros

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27.04.2026

O “self-care” popularizou-se na última década: dos media ao entretenimento, às bocas dos nossos terapeutas. “Cuida de ti próprio” e “You can't pour from an empty cup” tornaram-se lugares comuns. Contribuiu para normalizar a doença mental e diminuir o tabu à volta dela. Houve progressos como a criação de políticas públicas focadas na saúde mental, e é comum falar de emoções e terapia. Ainda assim, o tabu persiste e ainda é difícil aceder a cuidados de saúde mental.

Segundo a Global Self-care Federation, self-care é “a prática de os indivíduos cuidarem da sua própria saúde, utilizando a informação disponível”. Na última década, levou à adoção de hábitos saudáveis como o exercício físico, a alimentação equilibrada, o descanso, e a fundamental psicoterapia, onde aprendemos a regular as nossas emoções. A par disso, emergiu também a valorização do estabelecimento de limites - até onde devemos ir no trabalho ou nas nossas relações, quando dizer “Não.”, de forma a evitar burnout e conflitos nas nossas relações?

Entretanto, o que começou como um importante empoderamento depressa se transformou em algo que se pode comprar. Muitas marcas começaram a vender a ideia de que ter os seus produtos equivale a cuidar de si próprio; o estabelecimento de limites foi distorcido e passou de uma ferramenta de proteção para uma forma de evitar qualquer esforço emocional com os outros. Relações são descartadas por não serem “leves” e o apoio emocional a amigos é rejeitado por ser demasiado “peso emocional”.

Aliado à correria da vida moderna, isto tem contribuído para a erosão e superficialização das relações, o que é grave por os laços sociais saudáveis serem um dos principais preditores do nosso bem-estar. A solidão está associada a doenças cardíacas, diabetes, declínio cognitivo, e até morte prematura. Os laços sociais salvam-nos a vida. Porque haveremos, então, de lidar sozinhos com uma depressão quando, infelizmente, tanta gente à nossa volta está a passar pelo mesmo?

Os números em Portugal são alarmantes: uma parte significativa da população sofre de depressão e/ou ansiedade e consome antidepressivos, com uma grande incidência nas crianças e jovens, e, segundo um estudo recente do ISCTE, temos cada vez menos amigos íntimos.

Quando tanta gente enfrenta problemas de saúde mental, os problemas não são individuais, são sistémicos. Instituições como a Organização Mundial da Saúde reconhecem que a pobreza, a desigualdade, e a violência têm um impacto direto na saúde mental. Sendo problemas estruturais, não podem ser resolvidos apenas individualmente - muito menos através de práticas de self-care mercantilizadas e completamente desligadas do contexto. Não há meditação suficiente para combater o stress e a angústia causadas pela precariedade laboral ou pela discriminação. E não é sustentável: estas soluções atuam apenas sobre os sintomas, oferecendo alívio temporário sem resolver a raiz do problema.

O self-care não foi sempre tão solitário e individualista. Nos anos 70, os Panteras Negras, nos Estados Unidos, defendiam-no como forma de resistência ao racismo - Angela Davis recorreu a práticas de meditação para sobreviver à repressão e prisão. Mas estava inserido num contexto de cuidado coletivo: criaram creches comunitárias, programas de saúde, educação e de distribuição de comida, indo às raízes dos problemas estruturais.

O que podemos fazer para recuperar esta dimensão coletiva do cuidado? Reforçar a criação de políticas públicas que abordem as causas estruturais, bem como o investimento na saúde mental, e criar e fortalecer redes organizadas de apoio mútuo no dia a dia, que nos sustentem quando caímos, sejam flexíveis, onde a responsabilidade é partilhada e não sobrecarrega ninguém.

Uma pessoa minha conhecida criou um excel para os amigos colocarem as suas disponibilidades para apoiar num período difícil da sua saúde mental, com apoio emocional, deslocações ou refeições. Transformou-se, com o tempo, num sistema informal de ajuda mútua onde todos podiam pedir e oferecer ajuda. Existem coletivos em Portugal que praticam isto de várias formas, muitos deles queer ou feministas, que mostram como podemos viver de outra forma, aos quais nos podemos juntar, ou criar os nossos.

Não precisamos de sofrer sozinhos, podemos depender e cuidar mais uns dos outros. Aprendemos regulação emocional em relação, e fortalecemos os nossos laços quando nos seguramos na dor. Voltemos a alargar o autocuidado ao cuidado coletivo, porque, quer queiramos quer não, dependemos uns dos outros.

Esta coluna de opinião resulta de uma parceria entre a Geração E e a Associação Próxima Geração. A Próxima Geração é uma associação cívica multipartidária que promove a participação democrática dos jovens. As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor e não representam necessariamente a posição da associação.


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