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Cuidar não é apenas curar

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31.03.2026

A medicina nunca foi tão eficaz. E talvez nunca tenha sido tão exposta aos seus próprios limites.

Hoje, conseguimos diagnosticar mais cedo, tratar melhor, prolongar a vida em situações que, há poucas décadas, seriam impensáveis. Este progresso é real e deve ser reconhecido sem reservas. Mas é precisamente o seu sucesso que torna mais visível aquilo que a medicina, por si só, não resolve.

Curar não é o mesmo que cuidar.

Curar implica intervir sobre a doença. Cuidar implica compreender aquele que a vive. E esta diferença, que parece simples, obriga-nos a formular uma pergunta mais exigente. O que conta como conhecimento em medicina?

A medicina moderna construiu-se sobre um extraordinário trabalho de objetivação do corpo. Foi esse processo que permitiu localizar a doença, descrevê-la, classificá-la, tratá-la com crescente precisão. Mais tarde, a tecnicização dos cuidados e o predomínio dos modelos baseados na evidência reforçaram esta orientação, com ganhos inegáveis. Mas, no mesmo movimento, foi-se tornando mais fácil esquecer que a doença não existe apenas no corpo observado. Existe também na experiência de quem a sofre.

O doente não é apenas um organismo disfuncional, mas alguém que procura dar sentido ao que vive, através das palavras, dos silêncios e das hesitações. A prática clínica sempre dependeu disso: antes do dado, há um relato; antes da decisão, uma tradução da experiência em linguagem.Foi para pensar esta dimensão que, no final dos anos 1990, surgiu a Medicina Narrativa, impulsionada pela médica Rita Charon. Parte de uma ideia exigente: a clínica é mediada por histórias, e compreendê-las é parte da competência profissional. Não opõe evidência e experiência, nem ciência e humanidades; reconhece que o juízo clínico é também narrativo e interpretativo1

Nesse sentido, complementa a medicina baseada na evidência ao desenvolver competências de leitura atenta, escrita reflexiva e escuta, aprofundando a compreensão do doente e do próprio profissional de saúde.

É neste ponto que as Humanidades Médicas se tornam decisivas, enquanto campo mais amplo que integra abordagens como a Medicina Narrativa. Num sentido amplo, as HM procuram reintroduzir na formação e na prática dos cuidados aquilo que a aceleração institucional e a racionalidade técnico-procedimental tendem a comprimir: o tempo da escuta, a complexidade da experiência, a reflexão ética, a atenção à linguagem. Fazem-no através de práticas concretas que trabalham a leitura, a escrita e a escuta como formas de conhecimento.

Ler, neste contexto, é um treino de atenção. A literatura ensina a lidar com ambiguidades, a reconhecer múltiplos sentidos e a suspender respostas imediatas. Permite entrar na experiência do outro sem a reduzir.

Escrever não é apenas registar, mas clarificar. A escrita torna mais nítido o que antes era difuso e torna visíveis dimensões da prática que escapam ao imediato.

Escutar um doente não é só recolher dados, mas perceber como organiza a sua experiência e que sentido lhe atribui. A mesma doença pode corresponder a vivências muito diferentes. Ignorá-lo é empobrecer o juízo clínico.

Num tempo de consultas breves, sistemas pressionados e crescente mediação tecnológica, isto pode parecer secundário. Não é. O problema não está na técnica, mas na redução da racionalidade a um único modelo: a informação precede a pessoa, o protocolo sobrepõe-se à relação, o corpo eclipsa a biografia.

E a medicina, ganhando eficácia, arrisca perder espessura. É por isso que as Humanidades Médicas são hoje mais necessárias do que nunca. Porque ajudam a formar profissionais capazes de articular a competência técnica com as dimensões interpretativas, relacionais e éticas da prática clínica.

Porque a medicina não lida apenas com doenças.

Lida com pessoas.

E cuidar continua a ser, antes de mais, compreender.


© Expresso