MAGA mata MEGA, mas MEGA ama MAGA
Comecemos pelos termos. MAGA – Make America Great Again – dispensa apresentações: é marca, doutrina e desígnio exportado com sucesso por Donald Trump. Já MEGA – Make Europe Great Again – é uma apropriação europeia algo desastrada desse impulso: um sucedâneo com menos convicção e, sobretudo, menos coerência.
Recordo os primeiros anos do fenómeno MAGA, quando circularam pela Europa vídeos meio jocosos, meio resignados, em que vários países aceitavam ser “segundos” na nova hierarquia global. Teve graça, por pouco tempo. O fim da graça começa na própria matemática do poder. Alguém ser “great again” ou ostensivamente “first” implica secundarizar, terceirizar ou ignorar tudo o resto. Não é ideologia, é aritmética: mais de 8 mil milhões de pessoas no mundo, cerca de 342 milhões nos EUA. Traduzindo em linguagem MAGA: 4% de “great”, o resto logo se vê.
Nada contra o princípio – os Estados existem para maximizar segurança e prosperidade. O que é estranho – e politicamente problemático – é quando, na Europa, se assume que esse desígnio americano é também nosso. Que mais MAGA equivale a mais MEGA. Não equivale. E é bizarro ter de o explicar.
Quando observo líderes europeus a usar chapéus MAGA, literal ou metaforicamente, percebo a mensagem: soberania, fronteiras, identidade e valores. É simples, direto e eleitoralmente eficaz. Mas o racional estratégico dos patriotas europeus escapa-me. Ser patriota húngaro, italiano ou português e alinhar com uma hierarquia internacional que secundariza, por definição, os interesses europeus é ginástica conceptual digna de Torre e Espada.
Veja-se Viktor Orbán que, durante a presidência do Conselho da UE em 2024, recuperou o slogan MEGA. O paradoxo é evidente: afirmar a Europa enquanto se fragiliza a sua coesão. O resultado não é MEGA, mas uma Europa mais fragmentada – e, portanto, mais dependente.
No seu tempo, o “paquiderme” europeu vai produzindo políticas para inovar, produzir e proteger o que é seu – Buy European Act, European Chips Act e NextGenerationEU. Mas isso não é MEGA para os patriotas a sério. Para eles, MEGA é recuperar a sua “autoconfiança civilizacional e a identidade Ocidental”, ecoando a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA; é ignorar incentivos massivos à relocalização industrial para os EUA, como o Inflation Reduction Act; é aceitar pressões permanentes sobre a NATO, enquanto se financia, indiretamente, a indústria de defesa e tecnologia americana.
Mais, para estes patriotas europeus, MEGA é apoiar a cruzada americana no Médio Oriente e passar informações sensíveis à Rússia; é enfraquecer instituições comuns que dão escala à Europa; é calar quando os europeus são ofendidos e desprezado na arena internacionais; por fim, é criar partidos-satélite inspirados no trumpismo, como sucedeu na Bélgica com o TRUMP - Tous Réunis pour l’Union des Mouvements Populistes.
Este MEGA – o patriota a sério – continua, porém, a olhar para o MAGA com uma admiração quase comovente. Mesmo quando é ignorado, instrumentalizado ou descartado. Talvez porque é mais fácil mobilizar identidades do que construir estratégia ou porque é mais fácil culpar Bruxelas do que pensar a Europa. Ou, quem sabe, porque há conforto em ser-se pequeno – desde que se possa fingir o contrário. Como disse o Senhor Europa, Paul-Henri Spaak, “há apenas dois tipos de Estados na Europa: os pequenos e aqueles que ainda não sabem que são pequenos”. Eu acrescentaria um terceiro: os pequenos que usam chapéus MAGA à espera que alguém repare neles.
Talvez seja o momento de testar um novo slogan. Um mais honesto. Qualquer coisa como: META - Make Europe Think Again, ainda que isso implique – ironias da grandeza americana – pagar direitos ao Mark Zuckerberg.
