A lição de Ormuz – e nós, do que é que estamos à espera?
O Estreito de Ormuz tem menos de 40 quilómetros na sua parte mais estreita. Por ali passa cerca de um quinto do petróleo e gás natural liquefeito que o mundo consome. Durante décadas, o acesso a esse corredor foi tratado como uma certeza. Hoje sabemos que não é. A ameaça do seu encerramento, real ou instrumentalizada, bastou para fazer tremer mercados, cadeias de abastecimento e governos. E para nos lembrar de uma verdade desconfortável: o que recebemos de terceiros pode ser-nos retirado.
Esta não é uma crise pontual. É um sintoma de algo mais profundo: vivemos num mundo de decisões de curto prazo, guiadas por interesses particulares, onde a visão de longo prazo só emerge, e ainda assim com dificuldade, quando o que está em causa é verdadeiramente comum a todos. O clima é um desses casos. A energia é outro. E quando os dois se cruzam, a urgência é inegável.
Os Estados Unidos escolheram, neste momento, um caminho contrário: regressar aos combustíveis fósseis (drill, baby, drill!), abandonar compromissos climáticos, deixar o multilateralismo para trás. É uma escolha soberana. Mas é também um sinal. Os países que souberem construir autonomia energética estarão numa posição radicalmente diferente dos que ficaram dependentes de Ormuz, ou de qualquer outro corredor que um dia pode ser fechado.
E Portugal? Portugal tem sol. Tem vento. Tem cursos de água. Tem oceano. Tem características únicas para o aproveitamento de energias renováveis que outros países apenas podem ambicionar. Temos empresas e investigadores de referência nesta área. Temos, portanto, os ingredientes. O que tem faltado é uma receita coerente e a disciplina para a seguir. Parte dessa receita passa hoje, inevitavelmente, pelos sistemas híbridos: os grandes projetos renováveis têm de ser concebidos como sistemas que maximizam o aproveitamento das fontes de energia: vento, sol e integrados com armazenamento. Não é uma opção técnica entre outras, é a condição para que a autonomia energética seja real e não apenas estatística.
A Península Ibérica tem uma dificuldade real de interconexão energética com o resto da Europa. Durante anos vimos isso como um problema. Devemos, no entanto, encará-la como uma oportunidade. Se a energia que aqui produzimos ainda demora a chegar aos mercados do norte e do centro da Europa, então há um argumento poderoso para que as indústrias que precisam dessa energia venham até cá. Atrair indústria sustentável, data centers alimentados a renovável, hidrogénio verde para exportação, tudo isto é possível. Mas exige que o país fale a uma só voz e que a política energética não viva em silos desligados da política industrial, da atração de investimento e do desenvolvimento do território.
Há também uma dimensão interna que não pode ser ignorada. Essa estratégia só fará sentido se beneficiar o interior tanto quanto o litoral. Aproveitar os recursos naturais é uma oportunidade de coesão territorial que não encontramos facilmente noutras políticas. Energia, emprego, fixação de pessoas, tudo pode estar ligado, se houver vontade de o ligar. Mas para isso, os projetos têm de criar valor nas regiões onde operam: através de comunidades de energia renovável que permitam às famílias e empresas locais aceder a eletricidade mais barata, reduzindo a pobreza energética que ainda afeta dezenas de milhares de lares portugueses; através de parcerias com municípios e outras entidades que garantam uma partilha justa dos benefícios; através de emprego qualificado que não desapareça quando a obra termina. Um parque solar ou eólico que não deixa nada para trás, nem um posto de trabalho, nem uma fatura mais baixa, é uma oportunidade desperdiçada.
Mas isso requer algo que tem sido escasso: uma estratégia de longo prazo que sobreviva a ciclos eleitorais. Em Portugal, o discurso sobre energias renováveis tem sido frequentemente errático, ora entusiasta, ora travado por resistências locais mal geridas, ora capturado por interesses sectoriais, incluindo opções como o nuclear que está longe de provar ser uma solução. A janela de oportunidade existe. A tecnologia existe. O talento existe. O que não pode continuar a faltar é a coerência. Uma estratégia coerente, global, com respeito pelo território, participada pelas pessoas e que seja ambiciosa, integradora e duradoura.
O Acordo de Paris de 2015 criou um consenso global. Passados dez anos, sabemos que limitar o aquecimento a 1,5°C está fora de alcance, mas manter-nos abaixo dos 2°C ainda é possível, e faz toda a diferença entre um mundo difícil e um mundo ingovernável. Cada décima conta. Portugal não vai salvar o clima sozinho. Mas pode escolher estar do lado certo da história, e, ao fazê-lo, construir uma economia mais robusta, mais autónoma e mais capaz de resistir ao próximo Ormuz, seja ele um estreito, uma guerra, uma pandemia ou uma tempestade.
O que nos falta não é a oportunidade. É a coragem de a não desperdiçar.
