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O futuro está no passado e a literatura negra sabe disso

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02.09.2026

O que fizemos de nós? Estamos no fim do mundo? O que ficará depois que passarmos? Quem contará nossas histórias? 

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Há uma imagem que talvez seja uma das melhores chaves para pensar o tempo: a Sankofa. Símbolo Adinkra de origem Akan, na África Ocidental, Sankofa pode ser compreendido como “volte e pegue” -a ideia de que nunca é tarde para retornar e buscar aquilo que ficou para trás, aquilo que foi esquecido, apagado ou arrancado de nós. 

É a imagem de um pássaro que segue adiante, mas vira a cabeça para trás, como quem sabe que não existe futuro possível sem aquilo que o passado ainda tem a nos ensinar. Gosto de pensar que há algo profundamente Sankofa em olhar para a literatura, para a memória e para a autoria negra no Brasil: voltar não para permanecer no passado, nem para transformá-lo em nostalgia, mas para recuperar histórias, saberes, nomes e imaginários que foram sistematicamente silenciados - e trazê-los conosco para inventar o que ainda não existe.

O corpo também é uma escola: o que aprendemos quando saímos do lugar

Por que é tão importante fazer mulheres odiarem o próprio corpo?

Por isso, o tema da Festa Literária da Mantiqueira (FLIMA), que é PASSADOPRESENTE me fascina tanto, já que o tempo, quando olhado a partir de outras epistemologias, talvez nunca tenha sido uma linha reta.Lendo Leda Maria Martins aprendi que talvez  o tempo não seja essa linha reta que nos ensinaram a desenhar. Talvez passado, presente e futuro não estejam enfileirados, obedientes, cada qual em seu quadrado, como se um terminasse para que o outro pudesse começar.

Em Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela, Leda propõe outra experiência de temporalidade: uma temporalidade curva, feita de movimentos de ida e volta, de simultaneidades, de memória e de devir. Um tempo que se dobra. Que retorna. Que não volta exatamente ao mesmo lugar porque, quando retornamos, já somos outros. Para ela, a ancestralidade não é simplesmente aquilo que ficou para trás. É presença, movimento, fonte de conhecimento. O corpo carrega memória e a memória continua produzindo futuro.

É impossível pensar na programação da FLIMA 2026 sem pensar nisso porque parece justamente recusar a ideia de que o passado seja uma coisa morta, arquivada, encerrada. A curadoria, feita por Roberto Guimarães, Maria Carolina Casati e Cristiane Tavares parte da compreensão de que aquilo que lembramos, apagamos ou recontamos interfere diretamente na maneira como construímos o presente e imaginamos o futuro.

Penso que há ainda uma camada ainda mais profunda nessa escolha quando olhamos para a presença da autoria negra no festival. Porque, no Brasil, o passado nunca foi distribuído igualmente.

Durante séculos, pessoas negras foram transformadas em objeto da narrativa nacional, mas raramente reconhecidas como sujeitos produtores de conhecimento sobre essa própria história. Foram retratadas, catalogadas, escravizadas, estudadas, descritas. Mas quem escrevia? Quem nomeava? Quem registrava? Quem decidia o que deveria permanecer como memória?

É por isso que a presença de autores e intelectuais negros em uma festa literária não pode ser tratada apenas como uma questão de representatividade. É, antes, uma questão de epistemologia. De poder, memória e futuro.

Quando Marcelo D’Salete transforma os quadrinhos em ferramenta para revisitar a escravização e a resistência negra, por exemplo, ele não está simplesmente ilustrando uma história que já conhecemos. Em Cumbe e Mukanda Tiodora, ele desloca o ponto de vista e faz aparecerem personagens, experiências e perspectivas que foram marginalizados pela historiografia oficial. A escolha de D’Salete como homenageado da FLIMA 2026 sintetiza justamente esse gesto: voltar ao passado para produzir outra leitura do presente.

É um movimento que conversa profundamente com o que Saidiya Hartman vem fazendo ao investigar os arquivos da escravidão e suas ausências. Em sua chamada “fabulação crítica”, Hartman não inventa simplesmente aquilo que não está documentado. Ela enfrenta a violência de um arquivo construído em grande parte pelos próprios sistemas de poder e pergunta o que podemos fazer diante das vidas negras que aparecem ali apenas de forma fragmentada, distorcida ou silenciada. Sua escrita tenta criar outra ordem possível para essas histórias, sem fingir que o vazio documental não existe.

Talvez seja justamente aí que literatura e memória se encontrem de maneira tão radical. O que fazer com aquilo que não foi contado? Com o  que foi contado de maneira que parece errada? Ou uma única versão? O que fazer com aquilo que sobreviveu apenas como rastro?

Ana Maria Gonçalves nos oferece uma das respostas mais poderosas a essas perguntas em Um defeito de cor, obra também homenageada na FLIMA 2026. A trajetória de Kehinde é também uma trajetória de memória: uma mulher negra que, já idosa, reconstrói sua vida, sua travessia entre África e Brasil, suas perdas, seus afetos e sua busca pelo filho. A narrativa entrelaça história, memória e ancestralidade e transforma vestígios em matéria literária. Estudos sobre a obra destacam justamente seu trabalho de recuperação da memória coletiva afro-brasileira por meio desses rastros.

E não é casual que Ana Maria Gonçalves tenha também se aproximado explicitamente da ideia de tempo espiralar de Leda Maria Martins. Ao falar sobre seu trabalho artístico, a autora relacionou essa concepção a uma criação que não pretende contar uma vida de maneira linear, porque, numa perspectiva espiralar, os que já foram, os que estão e os que ainda virão podem habitar o mesmo campo de existência. A ancestralidade, nesse sentido, não aponta para trás: ela jorra para frente.

É nesse movimento que também encontro Jeovanna Vieira, que participa do FLIMA na mesa “Afetos históricos: o tempo das relações”, ao lado de Maria José Silveira. Há algo muito bonito, e politicamente necessário, em pensar a história também a partir dos afetos: aquilo que herdamos, os vínculos que nos constituem, as relações que atravessam gerações e as marcas que permanecem mesmo quando os registros oficiais desaparecem. Se Sankofa nos convida a voltar para buscar o que ficou para trás, e o tempo espiralar de Leda Maria Martins nos lembra que passado, presente e futuro podem coexistir, pensar os afetos é reconhecer que a história também acontece nos corpos, nas relações e naquilo que seguimos carregando uns dos outros. Jeovanna nos ajuda a olhar para esse tempo que não é apenas cronologia, mas experiência - um tempo feito de encontros, perdas, permanências e possibilidades de reinvenção.

Isso muda radicalmente a pergunta. Em vez de “o que........

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