Flávio virou 711 municípios de Lula: a crise no campo e a perda de perspectivas nas cidades
Por que 711 municípios que deram vitória a Lula no primeiro turno de 2022 passaram a preferir Flávio Bolsonaro em 2026?
A pergunta orienta um levantamento realizado por Filipe Boni, apresentado em seu canal no YouTube. O estudo identifica uma relação expressiva entre o peso da agropecuária na economia municipal e a perda de votos de Lula. Mas também registra mudanças em cidades industriais e metropolitanas, onde as dificuldades econômicas têm outras características.
A investigação de Boni é o ponto de partida. Seus achados permitem examinar problemas estruturais da economia brasileira: a dependência de insumos agrícolas, o endividamento dos produtores e a interrupção das perspectivas de ascensão social.
A geografia da mudança eleitoral
Segundo Boni, 711 municípios que deram maioria a Lula em 2022 passaram a dar maioria a Flávio Bolsonaro em 2026. No levantamento, não foi identificado o movimento inverso.
A mudança concentrou-se em Minas Gerais (178 municípios), Rio Grande do Sul (133), Paraná (91), São Paulo (89), Goiás (69) e Tocantins (37). No Nordeste, foram apenas 15 municípios.
Dos 711 municípios, 607 têm menos de 20 mil eleitores. Mas o fenômeno também alcançou 14 cidades com mais de 100 mil eleitores, entre elas Osasco, Barueri, Betim, Ribeirão das Neves, Santa Maria, Alvorada e Sapucaia do Sul.
Em Osasco, na Grande São Paulo, Flávio recebeu aproximadamente 191 mil votos, contra 182 mil de Lula.
O resultado mais expressivo aparece quando Boni relaciona a perda de votos à participação da agropecuária na economia local.
Boni cita ainda uma análise independente do cientista político Marco Antônio Faganelo, segundo a qual a queda típica alcançou 8,8 pontos nos municípios onde a agropecuária representa mais da metade da economia.
Quanto maior a dependência da agropecuária, maior foi a perda eleitoral de Lula. A associação é consistente, mas não comprova, isoladamente, suas causas.
Fertilizantes, sementes e a dependência brasileira
O Brasil é uma potência agrícola, mas importa aproximadamente 93% dos fertilizantes que consome, segundo dados citados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Isso expõe os produtores ao dólar, aos preços internacionais e a crises como a provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia.
Parte dessa vulnerabilidade resulta também de decisões nacionais.
Em 2018, durante o governo Michel Temer, a Petrobras anunciou a desativação de suas fábricas de fertilizantes nitrogenados na Bahia e em Sergipe. A paralisação efetiva ocorreu em 2019, já no governo Jair Bolsonaro, que também assistiu ao fechamento da unidade de Araucária, no Paraná, em 2020.
A Petrobras justificou sua retirada do setor pelos prejuízos operacionais. Em 2022, o governo Bolsonaro instituiu o Plano Nacional de Fertilizantes, mas a retomada das unidades ocorreu no governo Lula, em 2026. Segundo a estatal, as três fábricas têm capacidade para atender aproximadamente 20% do mercado brasileiro de ureia.
Há outra dependência importante: a das sementes e........
