O pagador de promissórias
De Adolpho Bloch a Jânio, Berg conta suas hilárias aventuras
Conhecido nas redações como Berg, Walterson Sardenberg se consagrou como um dos mais criativos autores de títulos da imprensa brasileira. Nesta entrevista ao programa “Cessar-fogo”, da TV 247, ele recorda alguns deles. Todos excelentes. Mas o mais extraordinário jamais foi publicado.
EU: Você era editor da revista “Contigo!”, uma das campeãs de vendas da Editora Abril. O que aconteceu quando foi lançada uma edição especial de humor, com as “Fotofofocas”?
BERG: Embora fosse uma revista bem popular e muito voltada para o show business e novelas, essa sessão de humor fazia um sucesso imenso. A gente brincava com as personalidades da época. Escolhia fotos de políticos, como Reagan, Margaret Thatcher, ou artistas famosos, e colocava balõezinhos com o que supostamente disseram no momento em que foram fotografados. E um dos grandes fãs era o dono da Abril, o Roberto Civita, que vivia mandando bilhetinhos. “Sensacional essa semana”, “que maravilha” e tal. Fez tanto sucesso que ele encomendou uma edição especial. Só de “fotofofocas”. E então reunimos a equipe para fazer. A equipe era muito boa. Tinha o Edson Aran, que depois virou diretor da Playboy. Tinha o Chagas, que era o pai da Tulipa. Tinha o Décio Piccinini, do júri do Silvio Santos, um cara muito engraçado. Nos reunimos no meu apartamento de solteiro e passamos dois dias à base de vodka, a bebida da moda nos anos oitenta. E claro que na época o Jânio estava num certo ostracismo e a gente brincava muito com a sua predileção pelos destilados. Fermentados também, aliás. E aí... acho que metade das piadas tinha algum viés para esse lado alcoólico do Jânio. amigo do álcool.
EU: Qual era a piada com o Jânio?
BERG: Eram muitas. Uma delas era o Jânio dizendo, com aquele jeito histriônico: “Rabo de galo, sim; briga de galo, não”. Porque ele tinha proibido briga de galo quando foi presidente, em 1961. Proibiu maiô de miss, proibiu briga de galo, proibiu lança-perfume. O modesto professor do Colégio Dante Alighieri se tornou um homem milionário no final da vida, né?
EU: É, mas ninguém sabe onde foi parar a fortuna dele, porque ele não contou nem para a filha a senha da sua conta na Suíça. Mas o que aconteceu quando a edição especial ficou pronta?
BERG: Ninguém esperava, mas ele ganhou a eleição para prefeito de São Paulo! Voltou ao jogo! Não era mais uma carta fora do baralho! E a Abril tinha alguns problemas de alvará. Não sei exatamente o que. O Departamento Jurídico da Abril se deparou com aquelas piadas e falou, “isso aqui não pode sair, o Jânio vai vir atrás da gente”. O Departamento Jurídico barrou. Mas já estava tudo impresso! E aí o que era piada virou uma tragédia! O que fazer? “Dá para cortar essas páginas do Jânio?” Não dava, não dava para cortar, porque não era um sistema de canoa, a edição, não lembro como era exatamente, com cola na ponta, não sei. Eu sei que não dava para cortar. Aí tiveram........
